Um livro

Trecho de Abusado, de Caco Barcellos:

“Por causa da quadrilha de Calunga e Paulista, nenhuma categoria sofreu tanto quanto os empresários de ônibus. No ano de 1991 eles foram atacados dez vezes pelo grupo. A escolha da vítima era feita por Calunga, que guardava mágoas profundas do transporte coletivo da cidade. Ele cresceu vendo o pai sofrer com a condução que o levava de casa, no subúrbio, para o trabalho, no centro. O pai ascensorista era obrigado a acordar às cinco horas da manhã porque o ônibus da linha demorava quase duas horas para deixá-lo perto da firma, na Cinelândia.

Muitas vezes Calunga viu o pai viajar pendurado pelo lado de fora, pingente do ônibus superlotado. Ele nunca esqueceu do acidente que sofreu quando estava com a mãe, amontoados no corredor. O ônibus bateu na traseira de um caminhão e o jogou contra a janela de vidro. Calunga sofreu vários cortes no rosto e no peito, e a mãe, imprensada pela massa de passageiros contra um banco de ferro, fraturou uma das pernas. Naquele dia, Calunga jurou matar o dono da empresa de ônibus, que se negou a indenizá-los.

Ônibus velhos, malconservados, sujos, em número sempre insuficiente para atender ao volume de passageiros motivaram algumas revoltas violentas no bairros vizinhos. Calunga e o pai estavam entre as pessoas que apedrejaram e puseram fogo nos carros. Dez anos depois, quando virou sequestrador, Calunga resolveu se vingar. Tentou levar para o cativeiro os principais empresários de ônibus da região onde morava.”

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