Verissimo e “Os dois lados”

Vale a pena ler o artigo “Os dois lados“, de Luis Fernando Verissimo. O escritor contesta as reivindicações de muita gente na semana passada de que o relatório da Comissão Nacional da Verdade deveria incluir também os crimes cometidos pela guerrilha. A própria existência desta discussão mostra o quanto estamos atrasados em relação a nossos vizinhos de Cone Sul. Para quem tiver interesse no assunto, recomendo o excelente Poder e desaparecimento, de Pilar Calveiro.

A imensa desigualdade entre os dois lados não existiu apenas nas disputas travadas naquele momento. Persiste no acesso aos meios de comunicação, em que um dos pontos de vista tem muito mais probabilidade de ser defendido do que os demais – até porque mesmo os veículos que viriam a ser censurados no futuro apoiaram o golpe e a ditadura.

E, talvez, esta preferência dos meios de comunicação se explique também porque essa lógica de “dois lados” se ajusta bem aos parâmetros de jornalismo hegemônicos nas corporações de mídia brasileiras, segundo os quais, para abordar corretamente um assunto, basta abrir aspas para dois lados, um contra e outro a favor. Já abordei este tema antes, a partir de uma esclarecedora e excelente análise de um pesquisador do tema drogas.

Tudo isso, claro, sem contar a omissão histórica dos ex-guerrilheiros, ex-perseguidos e ex-presos políticos que governam e governaram o Brasil desde 1995 em regular, regulamentar e democratizar os meios de comunicação.

4 Respostas to “Verissimo e “Os dois lados””

  1. Giovanni Duarte de Carvalho Says:

    O que LFV não se dá conta é que ele tenta combater uma contabilidade tétrica com outra contabilidade tétrica. Não é pelo número de mortos clandestinos ou pela quantidade dos armamentos empregados na luta que se busca uma simetria no relatório – ou pelo menos se deveria buscar. Que a luta era desigual todos já sabem. Afinal era um exército inteiro lutando contra um bando de “rebeldes”. A verdade que se busca não é a de quem escondeu mais cadáveres, ou quem tinha mais armas. Essa é uma verdade por demais óbvia para ser incluída no relatório. A verdade que se busca não é apenas a verdade dos números, mas a verdade dos fatos. As atrocidades cometidas por um dos lados são por demais conhecidas. Afinal, fala-se em torturas ou “porões da ditadura” quase que tão logo ela começou. Mas estranhamente nenhuma palavra é dita a respeito dos “porões da luta armada”. Como agiam os muitos “tribunais revolucionários” que se estabeleciam para julgar os “traidores da pátria”? Que tipo de crime era cometido contra os “repressores” da “causa do povo”? Havia torturas também? Execuções sumárias? Paus de arara?

    É essa a simetria que o relatório deveria buscar. Mas é justamente essa a simetria que o Veríssimo condena, pois ele tenta, de certa forma, qualificar os crimes cometidos pela luta armada (“justificados ou não”, acrescenta ele) dizendo que afinal foram crimes de sublevação contra o regime, enquanto os crimes do outro lado foram crimes do regime, crimes da ditadura. Esquece-se que a ditadura foi nada mais que uma sublevação contra outro tipo de ditadura que queriam implantar no nosso país: a ditadura do proletariado. Ditadura por ditadura, ou sublevação por sublevação, não há como qualificar os crimes cometidos, seja por um lado seja pelo outro. São absolutamente simétricos.

    Mas a respeito dessa simetria nem o Veríssimo nem a comissão se pronunciam. Em vista disso não seria mais apropriado intitular o seu artigo de “Um lado apenas” e trocar o nome da comissão para “Comissão da Meia-verdade”?

  2. Giovanni Duarte de Carvalho Says:

    No citado artigo LFV se insurge contra os que afirmam que o relatório da Comissão da Verdade, para ser justo, deveria incluir não apenas as vítimas da ditadura, mas também as vítimas da luta armada. Ele se rebela contra esse tipo de simetria apelando para o número de mortos em sepultura ignorada (que seria bem maior entre as vítimas da ditadura) e para “meios de repressão” contra “meios de resistência” (com a balança pendendo favoravelmente para a ditadura). Diz ele que esse tipo de contabilidade tétrica dos que pretendem igualar “os meus mortos” aos “teus mortos” é um insulto às vítimas de ambos os lados.

    O que LFV não se dá conta é que ele tenta combater uma contabilidade tétrica com outra contabilidade tétrica. Não é pelo número de mortos clandestinos ou pela quantidade dos armamentos empregados na luta que se busca uma simetria no relatório – ou pelo menos se deveria buscar. Que a luta era desigual todos já sabem. Afinal era um exército inteiro lutando contra um bando de “rebeldes”. A verdade que se busca não é a de quem escondeu mais cadáveres, ou quem tinha mais armas. Essa é uma verdade por demais óbvia para ser incluída no relatório. A verdade que se busca não é apenas a verdade dos números, mas a verdade dos fatos. As atrocidades cometidas por um dos lados são por demais conhecidas. Afinal, fala-se em torturas ou “porões da ditadura” quase que tão logo ela começou. Mas estranhamente nenhuma palavra é dita a respeito dos “porões da luta armada”. Como agiam os muitos “tribunais revolucionários” que se estabeleciam para julgar os “traidores da pátria”? Que tipo de crime era cometido contra os “repressores” da “causa do povo”? Havia torturas também? Execuções sumárias? Paus de arara?

    É essa a simetria que o relatório deveria buscar. Mas é justamente essa a simetria que o Veríssimo condena, pois ele tenta, de certa forma, qualificar os crimes cometidos pela luta armada (“justificados ou não”, acrescenta ele) dizendo que afinal foram crimes de sublevação contra o regime, enquanto os crimes do outro lado foram crimes do regime, crimes da ditadura. Esquece-se que a ditadura foi nada mais que uma sublevação contra outro tipo de ditadura que queriam implantar no nosso país: a ditadura do proletariado. Ditadura por ditadura, ou sublevação por sublevação, não há como qualificar os crimes cometidos, seja por um lado seja pelo outro. São absolutamente simétricos.

    Mas a respeito dessa simetria nem o Veríssimo nem a comissão se pronunciam. Em vista disso não seria mais apropriado intitular o seu artigo de “Um lado apenas” e trocar o nome da comissão para “Comissão da Meia-verdade”?

  3. Rafael Fortes Says:

    Caro Giovanni,

    Parece-me que o Verissimo se dá conta, sim. Mas tem um ponto de vista diferente do seu. Há quem acredite em simetria, como é o seu caso. E há quem ache a simetria descabida, como é o caso do Verissimo e do meu. (Aliás, acho descabida a simetria não apenas neste caso, mas em vários outros, como o de Israel x Palestina e o da suposta “guerra” entre policiais e traficantes no Rio de Janeiro.)

    Vale dizer também que um relato e uma reflexão bastante corajosos de certas ações da guerrilha estão presentes em obras como “Combate nas Trevas”, de Jacob Gorender, e “Viagem à Luta Armada”, de Carlos Eugênio Paz.

    De qualquer forma, ainda bem que estamos num regime democrático e podemos expor publicamente nossos pontos de vista e discordar de maneira civilizada, sem que eu seja chamado para dar explicações nem perca meu emprego.

  4. Giovanni Duarte de Carvalho Says:

    Caro Rafael,

    Obrigado pela resposta civilizada e por não me chamar de “apoiador de torturadores” (geralmente é assim que certa facção ideológica trata os que pensam de maneira diferente).

    Dito isso, você poderia explicar por que a simetria de maldades cometidas por ambos os lados é descabida? Você acha que os paus-de-arara, choques elétricos, execuções sumárias, espancamentos, estupros, carreiras arruinadas e parentes mortos de desgosto e tristeza ocorreram apenas em um dos lados daquela guerra suja? Acredita mesmo nisso? Pode apresentar provas?

    Acha que a óbvia ASSIMETRIA de forças é motivo suficiente para que a comissão tenha feito vista grossa para a não menos óbvia SIMETRIA de maldades cometidas por ambos os lados? Que justificativas você pode apresentar em favor dessa tese?

    O meu ponto é muito simples, Rafael: que maldades atrozes os rebeldes cometeram, a ponto de a comissão sequer tocar no assunto?

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