Sobre comentaristas de economia, inflação e cara-de-pau

Como acontece praticamente todos os anos, a conta de energia elétrica no Rio de Janeiro será aumentada – e muito acima da inflação. Dessa vez, segundo esta matéria, a média é de quase 17%. Coisas que quase ninguém – dentro do jornalismo das corporações de mídia, provavelmente, ninguém – vai falar:

1) O papel das agências reguladoras, criadas pelo governo do PSDB e mantidas pelos governos do PT, ao propiciar a sistemática extração de recursos da população para remunerar multinacionais, fundos de pensão, empreiteiras, bancos e fundos de investimento (os principais proprietários da maioria das empresas privatizadas de energia). Isto pode ser chamado de envio de recursos para o exterior, de concentração de renda e/ou de roubo.

2) Do papel sistemático dos preços controlados pelo Estado no aumento da inflação. É evidente que as empresas, prestadores de serviços etc. repassarão este aumento para os preços.

3) Curiosamente, embora os analistas econômicos vivam tão preocupados com a inflação – alguns deles abordam o tema em muitas dezenas de colunas ou comentários ao longo do ano -, nunca tocam no assunto quando ocorrem os elevados e injustificáveis aumentos das tarifas de energia. Aliás, não tocam no assunto quando acontecem os aumentos de qualquer outro preço controlado pelo Estado: transporte, remédios, combustíveis, planos de saúde, gás, telefonia, entre outros.

4) Tampouco se comenta a permanência destas políticas de aumentos sistemáticos acima da inflação em todos os níveis (federal, estadual e municipal) do Executivo no Brasil, seja qual for o partido à frente. Ao que parece, somos governados pelo Partido Único do Neoliberalismo: todo mandatário em exercício no Executivo garante aumentos acima da inflação para empresas que prestam serviços caros e de péssima qualidade, desrespeitam sistematicamente a legislação e, via de regra, exercem monopólios ou oligopólios sobre a prestação de serviços públicos (trocamos o monopólio estatal pelo privado; a incompetência e inoperância estatal pela privada).

5) Nenhum dos comentaristas articulará tal aumento à tão falada crise. Ou seja, falam o tempo todo de crise, de inflação e de cortes, soprando as trombetas do apocalipse a plenos pulmões, mas não têm capacidade (na verdade, falta vontade e sobra cinismo) de articular os elementos da ordem do dia com um aumento como o da Light. Como se uma coisa não tivesse nada a ver com a outra. Ora, cada crise é uma oportunidade para poucos ganharem (ou continuarem ganhando) muito, enquanto muitos perdem o que têm: bens, economias, dinheiro, moradia, trabalho, direitos, dignidade.

6) Já que a argumentação geral é que vivemos um período de sacrifícios e de cortes, por que os comentaristas econômicos não sugerem que as empresas concessionárias de serviços públicos participem do esforço coletivo de equilibrar as contas? Ou seja, poderiam sugerir que o Estado não reajustasse as tarifas. Isto contribuiria significativamente para a redução dos gastos – inclusive os do próprio Estado, que, ao privatizar, abriu mão do papel estratégico que tais empresas podem ter, inclusive em momentos de crise.

Um exemplo: o Conselho Universitário da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) afirmou ontem (12/11) que “em um ano, entre novembro de 2014 e novembro de 2015, a instituição perdeu R$140 milhões, em razão dos cortes e contingenciamentos orçamentários. O déficit foi agravado pelo aumento exponencial da energia e pelo peso crescente do pagamento dos terceirizados, que somam, atualmente, cinco mil trabalhadores. Cabe lembrar que em 2011 o total de terceirizados era de 870 trabalhadores.” Todas as medidas que causaram o problema são claramente neoliberais. Todas foram realizadas pelo Governo Dilma Rousseff (PT). (Em tempo: na Unirio, sempre mais governista que o governo, aparentemente continua tudo ótimo, como sempre esteve. Acredita quem quer.)

7) Já que a argumentação geral é que o Estado deve cortar custos (penso o contrário, mas essa é outra história), por que ninguém sugere cortes na taxa Selic? Trata-se, de longe, da maior e pior destinação de recursos públicos federais (com consequências para os demais níveis de governo e para vários setores da economia, a começar pelos bancos): dinheiro que poderia ser usado para garantir direitos é concentrado nas mãos de grandes especuladores e/ou nacionais e internacionais. Ou seja, gasta-se muito para concentar renda, tornar nossa economia mais vulnerável externamente e mais fraca internamente (pois aos empresários compensa mais especular que produzir).

Aliás, por que o Brasil tem que ter sempre uma das taxas de juros mais altas do mundo? A desculpa sempre repetida pelos pseudo-entendedores de economia que comentam nas corporações de mídia, de que é para segurar a inflação, não cola mais: a) como afirmam diferentes economistas em trocentos textos que citei e reproduzi neste blogue (há anos, mas principalmente no primeiro semestre de 2015): no caso específico da economia brasileira, taxa alta de juros não segura inflação, pois a demanda não é sua causa principal; b) além disso, por tudo que expus nos itens anteriores, fica claro que estes comentaristas não tem preocupação alguma com a inflação. A inflação é um espantalho discursivo apresentado para justificar medidas econômicas que concentram renda, aumentam a subordinação e submissão do país no cenário internacional, pioram as condições de vida de nossa população, fragilizam a maior parte das empresas nacionais – exceto os bancos, o agronegócio e as empreiteiras (a tríade que, como afirma o professor Reinaldo Gonçalves, é a grande favorecida, no plano interno, com a política econômica neoliberal das últimas décadas) – e drena, para o exterior e para o mercado financeiro, preciosos recursos necessários para garantir serviços públicos de qualidade e uma vida decente para nossa população.

8) Que tais figuras ocupem os postos em que estão nas corporações de mídia, não me surpreende. É coerente com o projeto de país destas empresas: embora com capital predominantemente nacional (graças à vilipendiada Constituição de 1988), são sabujas dos interesses dos países centrais do capitalismo e de suas multinacionais. O que continua me espantando é o quanto estes discursos – incoerentes, mal fundamentados, hipócritas, mentirosos – continuam sendo não só levados a sério, como aceitos e reproduzidos entre amplos setores da nossa sociedade. Inclusive na universidade e entre representantes de partidos e movimentos que se definem como de esquerda.

Uma resposta to “Sobre comentaristas de economia, inflação e cara-de-pau”

  1. Rapidinhas | A Lenda Says:

    […] num buraco ainda maior. Como afirmei em texto de 13 de novembro de 2015, a inflação segue “é um espantalho discursivo apresentado para justificar medidas econômicas que concentram renda, au…” Segundo Luis Nassif, jornalista econômico que é exceção à regra criticada por mim no […]

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