Sobre golpe, governo Dilma, políticas neoliberais, corporações de mídia e o bom e velho Brecht

Enquanto a Coração Valente discursa, coberta de razão, classificando como golpe aquilo que diferentes setores da direita estão articulando, seu governo de direita segue firme e forte na execução de políticas neoliberais. Vem aí novo corte de 21 bilhões no Orçamento. Evidentemente, não se fala – nem agora, nem nestes 13 anos de governo petista – em reduzir gastos zerando a taxa Selic e as verbas de publicidade federal em meios de comunicação golpistas, ou auditando a dívida pública, ou evitando realizar megaeventos esportivos como Copa do Mundo e Jogos Olímpicos. Neste aspecto, os governos (supostamente) de centro-esquerda caminham de mãos dadas com os rumos preconizados pelas editorias de economia das corporações de mídia – apesar de franca antipatia e desconfiança de parte a parte. Nenhum membro do governo ou das corporações de mídia se digna a perguntar ao senador Paulo Paim (PT/RS) se ele concorda com a falácia repetida ad nauseum de que a Previdência é deficitária – muito menos deixá-lo apresentar argumentos. (Aliás, cabe perguntar: por que Paulo Paim nunca foi ministro da Previdência ou do Trabalho dos governos do Partido dos Trabalhadores?)

O vocabulário da notícia sobre os cortes no Orçamento – denomiados “contingenciamento” – é o mesmo que tem predominado nos governos federais do Partido dos Trabalhadores (PT), e revela o quanto os pressupostos e valores neoliberais estão incorporados no governar e noticiar. Até um tempo atrás, era comum os governos brasileiros alegarem que executavam políticas neoliberais por serem obrigados a fazê-lo como contrapartida aos empréstimos de organizações como o Fundo Monetário Internacional (FMI). Desde o governo Lula, o Brasil está livre destes empréstimos. Do ponto de vista da política econômica executada pelo governo, contudo, isto pouco ou nada importa: os valores do antigo senhor foram incorporados pelo vassalo. O senhor se foi, mas o vassalo continua observando obedientemente as regras que se acostumara a obedecer. Afinal, entre os criados sob chibata, é comum crer que bom comportamento livra o lombo de apanhar mais.

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Resumo da ópera: enquanto tentamos salvar a democracia – e, indiretamente, o governo Dilma – das garras das direitas, o governo Dilma segue executando políticas neoliberais e contrárias aos setores que o defendem.

Paulo Henrique Amorim saudou que o movimento “é maior do que o PT” e também do que Dilma e Lula. Ora, evidente que sim! Até porque não se trata, no meu caso e no de muita gente, de defender um governo indefensável – do ponto de vista da esquerda – como o da Coração Valente. Trata-se de defender o respeito à vontade popular, à legalidade e a tudo que custou muito construir. Nossa democracia tem muitos limites, mas temos que melhorá-la, e não abandoná-la. Democracia não é um destino, mas o caminho e o caminhar.

Nesta jornada, ai de quem acreditar que poderá contar com ajuda ou iluminação de meios de comunicação como os da Editora Abril e das Organizações Globo. Aproveitando o ensejo do discurso (justificadamente) indignado no dia em que foi preso, mas não foi preso, cabe perguntar: quantas vezes mais, em sua vida política, Lula vai “descobrir” que a Globo é antidemocrática e fecha com os piores setores da sociedade brasileira?

Apesar dos notáveis avanços no combate à pobreza, na política cultural e nas relações exteriores, me decepcionei com os governos de Lula, e a leitura dos textos deste blogue durante o período evidenciam isto. Contudo, comparados aos de Dilma, são excelentes. Na verdade, à medida que o tempo passa e avança este tenebroso novo mandato da Coração Valente, o governo Lula vai ficando cada vez melhor aos meus olhos. Digo isso com lamento, mas sem surpresa. Achei muito ruim a escolha de Dilma como sucessora, tanto por seu perfil, quanto pelo fato de que a escolha passava por cima de diversas lideranças do partido que poderiam ter sido alçadas ao posto central – Martha e Eduardo Suplicy, Tarso Genro, Aloizio Mercadante. Ou mesmo lideranças de partidos historicamente da base, como Luiza Erundina, Ciro Gomes e Eduardo Campos. Para isto, evidentemente, o Grande Líder precisaria aceitar a existência de liderança além da sua, o que prejudicaria o papel de mito. Não aconteceu.

Tenho sérias dúvidas se, mesmo após deixar o governo federal, o PT fará estes e outros acertos de contas e autocríticas.

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Como venho dizendo há semanas, o melhor espaço que encontrei para entender e acompanhar o que está acontecendo são os textos de Luis Nassif, publicados em seu site. (Há textos de outras pessoas publicados ou reproduzidos no site, mas variam muito: uns considero excelentes e esclarecedores; noutros, vejo muitos problemas.)

Na análise de ontem (quinta-feira), além de informações e comentários primorosos, fiquei sabendo que uma repórter do Estadão foi perseguida pela Lava-Jato. Como se trata da operação do bem, (aparentemente) fica tudo bem. Afinal, os visitantes não perguntaram se a dona da casa era petista e até foram simpáticos com o cachorro – e, imagino, não tenham deixado grampo no sofá. Pelo jeito, vai levar tempo até que mais gente entenda que a situação brasileira é parecida com a narrada no “Intertexto“, de Bertold Brecht. Boa parte da sociedade e da imprensa prosseguem com a ideia do bem contra o mal, nós contra eles.

(Em tempo: nunca me animei com a prática de escrachos feitos por jovens contra militares que (supostamente) cometeram crimes durante a ditadura civil-militar (1964-1985). Setores da esquerda organizaram tais práticas ou lhes deram visibilidade e apoio. Entendo os motivos de tais atos e considero injustificável a impunidade. Mas, por motivos como o aviso de Brecht, sempre considerei discutível tal prática. Agora setores da esquerda reclamam do fascismo de quem aparece na soleira de certas residências para protestar, encher o saco, ameaçar ou cometer crimes. Talvez seja tarde.)

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Paulo Henrique Amorim, pró-governo, definiu muito bem: “depois de 5 anos e dois meses, Dilma nomeou um Ministro da Justiça!” Torço muito para que a escolha de Aragão neste mês de março não tenha vindo tarde demais. Adendo: “ficar sem” ministro é a melhor avaliação que se pode fazer. A de Luis Nassif é pior…

Comparo o ex-ministro com os ocupantes do cargo durante o governo Lula, ou com Wadih Damous, deputado federal (PT/RJ) que vem tendo uma conduta exemplar, e chego à pergunta: como e por que o governo da Coração Valente manteve Cardozo por tanto tempo naquele ministério?

A mesma pergunta pode ser feita com relação a boa parte ministério, incluindo o ministro da Educação, Aloizio Mercadante, cuja atuação já comentei algumas vezes neste blogue.

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Considerando que estamos num momento de crise, seria o caso de as corporações de mídia ouvirem as lideranças que consideram relevantes. Por exemplo, o ex-presidente José Sarney (PMDB/AP). Ocupou numerosos cargos de destaque, como as presidências da República e do Senado. Imortal da Academia Brasileira de Letras e colunista da ditabranda Folha de S. Paulo, o que tem a dizer sobre o atual momento? Com que setores está se aliando? Que rumos seguem seus filhos (todos envolvidos no universo da política)? O que têm a dizer outras lideranças relevantes como Garotinho, Jader Barbalho, Cabralzinho, Eduardo Azeredo e Paulo Maluf? Os atuais prefeitos da Cidade Olímpica, Eduardo Paes (PMDB) e de Salvador, ACM Neto (PFL)? Não sabemos, nem as corporações de mídia, sócias do poder, se interessam em perguntar.

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4 Respostas to “Sobre golpe, governo Dilma, políticas neoliberais, corporações de mídia e o bom e velho Brecht”

  1. ilana polistchuck Says:

    Final do texto histórico como o autor que é jornalista e historiador, bravo!

  2. Rapidinhas | A Lenda Says:

    […] do exterior, a democracia, a política neoliberal do governo Dilma Rousseff segue firme e forte. Na nova rodada de facadas no Orçamento, a rubrica escolhida para sofrer o maior corte foi a Educação (via Jornal da […]

  3. Anderson Sanchez Says:

    Esclarecedor. A análise política e contexto histórico nis situa no momento conturbado em que vivemos. Uma enxurrada de informações que só confundem e que nada contribuem para um debate produtivo. Professor, só não concordo com a hipótese que apresentou para a escolha da Dilma para a sucessão do Lula. Acredito que a pouca experiência dela na Administração Pública foi o fator preponderante. Exatamente para não sofrer acusações de incompetência ou suspeita de crimes como acontece agora. Paralelamente, nenhuma das figuras políticas que apresentou e as que não citou (tanto da situação quanto da oposição) seria capaz de ofuscar a biografia do presidente Lula e o lugar dele na História do País.

  4. Rafael Fortes Says:

    Obrigado pelo comentário, Anderson.

    Faz sentido o que você pondera. Pode muito bem ter sido por aí o motivo principal pra escolha.

    E, de fato, nenhum deles ofuscaria. Parece-me que qualquer ascensão de liderança incomodava muito e foi ceifada. Mas você está certo: o Lula está muito à frente. Nem precisava ceifar as lideranças da maneira como isto foi feito…

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