O inacreditável contraste entre as coberturas política e esportiva: uma questão a pesquisar

Lado A: em 2/4/2016, a chamada principal do Globo Online (captura de tela ao lado), é claro, era sobre impeachment. Nas últimas semanas e meses, todos os veículos de comunicação das Organizações Globo vêm atuando politicamente para enfraquecer e derrubar, seja como for, o governo Dilma Rousseff. Tenho escrito sobre isso, e lido mais ainda, mas o tema deste texto é outro.

O Globo 2-4-2016Lado B: a parte superior da página exibia também notícias sobre os Jogos Olímpicos de agosto. Sob a rubrica RIO 2016, havia quatro chamadas:

“- ‘NÃO OUÇAM OS PESSIMISTAS’ – Scharzenegger: ‘Jogos Olímpicos serão espetaculares’

– CERIMÔNIAS – Rio-2016 procura voluntários que dancem forró

– MOBILIDADE – União autoriza mais R$ 1 bi para linha 4 do metrô

– DECIDIDO – Campeão do sexo masculino será o primeiro a levar a tocha”

O tema deste texto é a discrepância entre as abordagens dos dois temas acima, que estou seguirei chamando, para facilitar, de Lado A e Lado B. Destaco quatro aspectos:

1) Positivo x negativo

Lado A: a cobertura de (quase) tudo relativo aos governos petistas é negativa. Em especial, nas últimas semanas (mesmo quando a desvalorização do real frente ao dólar favorece as exportações e a balança comercial, por exemplo). “Só sabem roubar”, “o país vai acabar”, “precisava aprovar a pena de morte para todos os corruptos”, “só nos resta fugir para a Flórida”, “nunca vi “governo tão ruim”, “a moralidade acabou” e afins abundam nos comentários das notícias, como reação a uma realidade em grande parte construída pelo noticiário. Quem cortou contato eletrônico com algum familiar desde as eleições de 2014, ou muda de assunto quando vai a um aniversário e desconhecidos (ou pior ainda, conhecidos) começam a falar do “mar de lama”, levanta a mão.

Lado B: os Jogos Olímpicos serão realizados num país em crise. Neste momento, é impossível saber quem estará na Presidência (um absurdo, considerando que o mandato vai até 2018). Realizar tais megaeventos contribuiu, contribui e contribuirá para a pindaíba em que estão o Brasil, o Rio de Janeiro (estado) e o Rio de Janeiro (município) – voltarei a isto no item 3. É uma tremenda transferência de recursos públicos para empresários nacionais e, pior, estrangeiros, com pouca geração de empregos, quase nenhum recolhimento de impostos etc. Contudo, a visão dos Jogos é sempre positiva. Nas quatro chamadas, é tudo bonito, feliz, bacana. Até a referência a derrotismo e pessimismo aparece nas palavras de quem propõe que tal visão é equivocada: Arnold Schwarzenegger, invocado por O Globo para nos ajudar a interpretar o Brasil e nos posicionarmos de forma correta face aos acontecimentos. Pra quem já foi o exterminador do futuro, tá pimpão e vivaz, ele. Agora, e se tivesse dito o mesmo – “Não ouçam os pessimistas” – a respeito de declarações da Coração Valente ou de algum de seus grandes ministros, como teria agido The Globe? Estamparia na página principal, sem contestação de Merval e Noblat na coluna mais à direita (diga-se de passagem, nunca na história desse país jornalistas políticos ficaram tão adequadamente posicionados)? Seja como for, o house organ da Casa Branca já teve brasilianistas melhores.

2) Corrupção x não-corrupção

Lado A: A corrupção aparece em muitas notícias sobre o governo federal e sobre o PT. É comum envolverem empreiteiras que recebem dinheiro público para fazer obras contratadas pelo Estado.

Lado B: As federações esportivas são administradas por políticos eleitos por mecanismos menos democráticos que deputados, presidentes etc. Tal como o Sistema S, as entidades esportivas administram dinheiro público grosso e bens públicos, mas não estão sujeitas aos mecanismos de controle do Estado (como licitações para obras e prestações de contas e relatórios de pesquisa). O grosso das obras da Olimpíada envolvem as empreiteiras de sempre. Considerando o caso do Rio de Janeiro: desde a (trágica) escolha da cidade para sediar os Jogos, em 2009, o PT está à frente do Governo Federal; faz parte do governo estadual (ocupando secretarias nos governos de Cabralzinho, por exemplo) e, mais ainda, do municipal (o vice-prefeito é Adilson Pires, do PT). Contudo, olhando as quatro chamadas e o grosso do que divulgam as Organizações Globo sobre os Jogos Olímpicos, inexiste corrupção. Será? Ou melhor, como diria Didi Mocó: Cuma? Se é assim, estaríamos melhores com Nuzman que com Moro presidente!

3) Dinheiro rolando solto para roubar x dinheiro rolando solto para “mobilidade”

Esse aspecto é o mais gritante, e também o mais canalha.

Lado A: muita gente que lê este noticiário está segura de que todo dinheiro gasto pelos governos do PT é suspeito, tudo que se fazem é roubar ou tentar roubar etc. Nesta visão, a sociedade brasileira, íntegra até a raiz dos cabelos, é vítima desse bando de criminosos que se apossou do Planalto para meter dinheiro público no bolso. Não importa que motivos e argumentos apresente o governo para suas decisões: todas elas têm o objetivo último e único de roubar. Nas redes antissociais, qualquer um que pondere que isto pode não ser verdade vira advogado de defesa de ladrões e, um comentário depois, petralha ladrão.

Labo B: contudo, existem os Jogos Olímpicos e a obra do Metrô do Rio de Janeiro. O metrô do Rio é horroroso. As expansões de linha única minimalista inventadas pelos governos do PMDB/PT vai torná-lo ainda pior. É caro, ineficiente, restrito e desconfortável (chamem os governos paulistas do PSDB, por favor! Desmoronam umas obras matando gente aqui, some um dinheiro acolá, mas o metrô está sempre crescendo, em rede, e ganha novas linhas que são mesmo linhas, e não extensão da linha única já existente). Soma-se a isso o fato de que os seguidos governos do PMDB tanto fizeram que faliram o estado do Rio, que anda numa de horror, atrasando (“parcelando”, segundo O Globo) salário de professor e policial militar (a conferir se a pindaíba produzirá solidariedade de classe e, na próxima passeata de professores estaduais, os PMs deixarão de distribuir tiro, porrada e bomba). Quando se autoriza um bilhão de reais para uma obra superfaturada gerida por um governo do PMDB, não se trata, evidentemente, de pedalada fiscal, nem de erro, nem de violar Orçamento, nem de arrombar os princípios mais sagrados da política nacional (o superávit primário e a Lei de Responsabilidade Fiscal!), nem de governo Dilma como sujeito da frase. É a “União”, é a busca da “mobilidade”, é o “todos juntos, vamos, pra frente, Brasil”. Assim caminha a mobilidade: pezão ante pezão. A discussão política desaparece: no esporte, somos todos Pachecos, pronto, acabou. Mas, claro, pode e deve haver discussão política. Uma boa crítica deste novo empréstimo é feita no vídeo abaixo pelo deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL/RJ), que elenca o rosário de fiados anteriores, que darão contribuição decisiva para falir o estado do RJ e encher os cofres das empreiteiras (a construção do metrô é só a justificativa para a transferência de recursos; é o meio, e não o fim):

4) Trabalho x voluntariado

Lado A: Um dos motivos para as corporações de mídia demonizarem os governos do PT e o partido é por considerá-lo pró-trabalho, comunista, anticapitalismo e antipatronato. Antes fosse… Basta vez quantos direitos dos trabalhadores (previdência social, lei antiterrorismo, greves, perseguição de grevistas no serviço público, terceirização etc.) foram retirados ou precarizados desde 2003. Contudo, imagem é tudo, então é com ela que se fica. Ademais, trabalhadores podem lutar, se organizar, se solidarizar. Podem até ler Marx e acreditar que existe mais-valia! Melhor banir a palavra do léxico, e transformar todo mundo em empreendedor, associado, colaborador etc.

Lado B: Os megaeventos esportivos geram bilhões de dólares de lucros para entidades bandidas como FIFA e COI. Um dos motivos é que, em vez de remunerar os trabalhadores que exploram, os recrutam como voluntários, para poder explorar ainda mais. Voluntários são muito mais legais que trabalhadores. Não reclamam ou têm sindicatos para lhes proteger, estão sempre bem-dispostos e sorridentes, não custam nada e podem ser dispensados sem problemas.

*  *  *

O texto acima é impressionista, apressado e escrito no calor do momento (a maior parte do que penso e do que tinha a dizer sobre a realização, entre 2007-2016, de megaeventos esportivos no Brasil está neste capítulo do livro A Copa das Copas: Reflexões sobre o Mundial de futebol de 2014 no Brasil). Contudo, se aplicadas a um corpus significativo, através de observação sistematizada, podem render pesquisas científicas. São bons temas para trabalhos de mestrado e doutorado em ciências humanas – em Comunicação, mas não só. Há muito o que pesquisar, por exemplo, sobre as diferenças estruturais e narrativas entre a cobertura do esporte e de outros assuntos, tema da reflexão que fiz acima. Contudo, infelizmente, boa parte dos jovens pesquisadores continuam interessados em fazer repetitivas pesquisas sobre os mesmos assuntos, quando se trata de esporte. Existem milhares de pesquisas a fazer sobre o esporte com potencial de contribuir para a compreensão da sociedade brasileira (e/ou de estados, cidades, regiões, períodos históricos, classes sociais etc.). Resta fazê-las.

 

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2 Respostas to “O inacreditável contraste entre as coberturas política e esportiva: uma questão a pesquisar”

  1. Renata Moraes Says:

    Bela comparação, Rafael…mas só para destacar uma questão. Nas duas grandes manifestações dos servidores públicos do estado do Rio ocorridas no centro e no largo do machado a polícia sempre esteve presente e de forma bem tranquila. Na primeira manifestação o representante da categoria estava no carro de som enquanto que alguns PMs andavam junto com a multidão. Aparentemente estavam ali para proteger (até porque algum louco pode surgir e furar o bloqueio) e caminharam junto sem oferecer nenhum perigo. Na caminhada ocorrida do Largo do Machado até o Palácio, sob forte chuva, a polícia também estava presente cuidando do trânsito (fechando as vias para as pessoas passarem). Então, a situação crítica dos servidores também os afeta e acredito mesmo que não haverá nenhuma repressão aos manifestantes. Estamos todos no mesmo barco e vai ser duro bater em servidor tendo o salário atrasado ou parcelado. Vamos aguardar a manifestação de quarta, também partindo do Largo do Machado

  2. Rafael Fortes Says:

    Obrigado pelo comentário, Renata.

    Tomara que continue assim. Melhor ainda seria se deixasse de ser algo circunstancial e se tornasse definitivo. Como servidor federal, é tranquilo participar de passeatas quando faço greve. Quem dera fosse sempre assim para todos os professores…

    Infelizmente, a situação é bem distinta com meus colegas e amigos que trabalham no município e no estado… As barbaridades que alguns deles sofreram e muitos viram em anos recentes ainda estão bem vivas na minha memória.

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