Rapidinhas

– Não é possível. Só podem estar de sacanagem!

Foi o que pensei, quando vi a notícia de que o ministro interino da Educação Mendonça Filho recebeu Alexandre Frota para conversar sobre os rumos do setor. O sensacional Sensacionalista fez uma boa cobertura do tema.

Fiquei curioso para saber se o encontro é uma indicação de que, para o ministro e o governo interinos, vai tudo às mil maravilhas na área. E também se é um sinal das prioridades da agenda do chefe.

Pois, como quase todo mundo sabe, as coisas vão mal, muito mal na educação. Por exemplo, a notícia de que os grupos de investimento privados que viraram donos de instituições de ensino superior estão crescendo e lucrando em meio à crise (via Jornal da Ciência). Para lucrar mais, as empresas são ajudadas com ampla ação e omissão do Estado. Ação, ao injetar bilhões via programas como Fies e Prouni. Segundo a matéria, em 2015, nada menos que 45% dos alunos das empresas listadas na mesma eram bolsistas do Fies.

Omissão (esta vai por minha conta, não é assunto da reportagem), ao não fiscalizá-las (por exemplo, as delegacias do MEC em cada estado fechadas no governo FHC não foram reabertas no de Lula, nem no de Dilma, nem no do interino); ao fazer vista grossa para as bandalheiras fiscais e tributárias, para o descumprimento sistemático da legislação trabalhista, para as precárias condições para os alunos (e as humilhações a que são submetidos nas tesourarias e secretarias), para as maquiagens por ocasião das raras “visitas do MEC”, para as demissões em massa de professores; ao realizar visitas e avaliações que nada mudam de estrutural (inclusive na precariedade das  instituições federais vinculadas ao próprio MEC, como a Unirio, em que trabalho); e muito mais eu poderia listar.

A perspectiva empresarial do Estadão, em que foi veiculada a matéria, fica clara no título: “Grupos de ensino superior crescem, mas investem menos em docentes“. Ora, inexiste oposição ou contradição entre as duas ações. Existe, sim, uma relação causal: a exploração de professores é justamente um dos mecanismos para crescer – um dos motivos do aumento do lucro. A reportagem é clara: enquanto o lucro aumenta, a proporção de receita destinada ao salário dos professores diminui. A crise é uma ótima desculpa para arrocho salarial, redução do número de turmas, ampliação da quantidade de estudantes dentro de sala (frequentemente contrariando acordos coletivos, como no caso do município do Rio de Janeiro) e outras sacanagens e ilegalidades que são impostas a alunos e docentes. Tais práticas não são inventadas em época de crise, mas se agravam: a crise vira justificativa para as barbaridades, e os professores, com medo do desemprego e/ou da redução salarial, acabam se sujeitando com mais facilidade (ou têm menos ânimo e condições de brigar pelo certo, decente, justo e legal).

Há de se elogiar a matéria de Isabela Palhares, cujo tema e ênfase são coisa rara de se ver no jornalismo das corporações de mídia.

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Na saúde, onde o governo interino também quer passar o rodo, pesquisadores afirmaram recentemente que os cortes na saúde pública, ainda mais em época de crise, aumentam a incidência de doenças e mortes.

Problemas como subfinanciamento, é bom lembrar, vêm desde os governos do PT. Como aponta um dos citados na matéria, o grande problema – e não só da saúde – é a proporção de recursos públicos desperdiçados anualmente com o pagamento de juros e serviço da dívida. Em vez de ser destinado ao SUS, onde poderia garantir o direito à saúde, é desperdiçado enriquecendo os ricos. Priorizar a remuneração dos ricos, manter os juros altos e dar isenções e subsídios a grandes empresas (nacionais e multinacionais) e ao capital especulativo foram decisões políticas tomadas/renovadas a cada ano dos governos Lula e Dilma. Serão, provavelmente, aprofundadas pelo governo interino.

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O estrupro em bando de uma menina é um daqueles acontecimentos que dão vontade de pedir para parar o mundo e descer.

A visibilidade fez com que a polícia agisse rapidamente (o que não quer dizer que esteja agindo corretamente). As polícias solucionam menos de 8% dos homicídios no Brasil. Não sei qual o percentual para os casos de estupro, mas imagino que seja baixo. Juntando com a subnotificação, as dificuldades de obter ajuda profissional (incluindo o aborto, legalizado para vítimas do crime, mas difícil de conseguir na prática; aliás, quem falou em reduzir os já insuficientes gastos com saúde pública e o SUS mesmo?) etc., o panorama é desolador. Como sociedade, não apenas somos/fomos criados numa cultura machista (com seus nuances de classe, geografia, raça etc.), mas nosso Estado, também produtor/produto dessa cultura, dispensa parca atenção e recursos para lidar com o problema, preveni-lo, combatê-lo, e para socorrer as vítimas.

Singelo exemplo: sabemos que os campi universitários são espaços em que acontecem muitos casos – amplamente subnotificados – de assédio sexual, estrupo, atentado ao pudor etc. Contudo, as universidades brasileiras dedicam pouca ou nenhuma atenção ao assunto. A Unirio, onde trabalho, conta com um (isso mesmo, um) psicólogo para atender 7.000 estudantes.

E o fundamental: a imensa e intensa dor daquela menina. Precisamos ouvir as vítimas que queiram/consigam falar publicamente, precisamos prestar atenção a seus relatos e dar visibilidade a eles. Precisamos ouvir quem cuida das vítimas e quem convive com elas. Permanentemente.

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Em mais uma tentativa de censurar Luis Nassif, dessa vez parece que a ação contra ele confessou que a Lava-Jato é anti-governo Dilma e anti-PT. Ah, os excessos de sinceridade…

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Enquanto isso, uma oportunidade de investigar a sério a corrupção foi desperdiçada pela falta de interesse político de investigar do nosso Parlamento (e a falta de interesse dos meios de comunicação de pautar o assunto e exigir/estimular as investigações): a CPI do HSBC foi encerrada meses antes do prazo. Não se ouviu uma singela panela ser batucada em protesto ou lamento. Mas, claro, seguimos todos muito atentos e preocupados com a corrupção. Seguimos?

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