Uma breve homenagem a Bert J. Barickman (1958-2016)

A maré está mesmo ruim. Pingou na caixa postal uma notícia muito triste. Partiu o professor Bert J. Barickman, da Universidade do Arizona (EUA), especialista em História do Brasil.

Por volta de 2002, 2003, eu era um estudante de graduação em História na Universidade Federal Fluminense (UFF), quando, não lembro em que contexto, comentei com a professora de História do Brasil II que estava pensando num projeto de doutorado para pesquisar revistas de surfe (eu também fazia mestrado em Comunicação). Ela prontamente sugeriu que eu entrasse em contato com um professor americano, que falava fluentemente português e vinha sempre ao Brasil, e que estava iniciando uma pesquisa sobre a praia no Rio de Janeiro. “Pode escrever para ele em português”, ela me disse.

Bert respondeu meu email com um português e uma simpatia que me surpreenderam. Ao nos encontrarmos para tomar umas cervejas no Arco do Teles (numa época em que a entrada do arco ainda se enchia de mesas e cadeiras), deu várias dicas para o meu projeto e me estimulou a prosseguir com o tema. Mantivemos contato, e, ao longo dos anos, trocamos ideias e referências, e nos encontramos nas ocasiões em que ele veio ao Rio de Janeiro. Bert preferia o português de Portugal, ainda que um pouco desbotado pelas muitas visitas ao Rio. Escrevia em português praticamente com a mesma fluência de seu inglês nativo. Adorava Copacabana.

Bert pesquisou apaixonadamente o Brasil durante décadas. Deixou amigos sobretudo nos departamentos de História da Universidade Federal Fluminense (UFF), onde cursou mestrado nos anos 1980, e da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Publicou trabalhos em português e em inglês, entre os quais se destaca Um contraponto baiano: açúcar, fumo, mandioca e escravidão no Recôncavo, 1780-1860 (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003). Em português, veiculou seus artigos particularmente na revista Afro-Ásia.

De sua pesquisa sobre a praia do Rio de Janeiro, o trabalho publicado mais recentemente, que eu saiba, é o excelente “Medindo maiôs e correndo atrás de homens sem camisa: a polícia e as praias cariocas, 1920-1950“, que saiu na edição de junho de 2016 de Recorde: Revista de História do Esporte. Sobre a mesma pesquisa, em português, há outro excepcional artigo a respeito da cor da pele e do bronzeamento entre os anos 1920 e 1950. Espero que o livro venha a ser publicado um dia. Será uma contribuição imensa aos estudos históricos do lazer e da cidade do Rio de Janeiro.

Além de um pesquisador de mão cheia e um intelectual notável, Bert mostrou-se, a cada vinda ao Rio (e nos contatos por email) um colaborador generoso, sempre disposto a trocar ideias e indicar fontes, assim como a fazer perguntas, trazer dúvidas, pedir contatos de amigos. A intensa curiosidade e a busca do conhecimento o faziam avançar; a cautela e o compromisso com a cientificidade o faziam parar e contemplar, desconfiar, ponderar, problematizar. As conversas com cariocas às vezes eram demandadas por dúvidas sobre uma palavra, uma referência, um vídeo. Sua pesquisa sobre os usos da praia na cidade era complexa e difícil, sobretudo à medida que se aproximava do tempo presente, com os diferentes contextos, a dispersão e quantidade de fontes, a intensa midiatização das representações da praia e de seus frequentadores.

Perdemos um pesquisador sério, talentoso, progressista, generoso e que tinha um amor imenso pelo Brasil – amor que estimulou em muitos de seus alunos e orientandos, usando os mais variados métodos, incluindo apresentações de fim de curso heterodoxas com música, vestimentas e arte brasileiras no meio de bares de Tucson, Arizona.

Bert era um tremendo sangue-bom.

 

 

Rafael Fortes
Professor do Departamento de Ciências Sociais
Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio)

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