Rapidinhas

No texto que publiquei ontem, faltou dizer que o tiroteio matou uma menina que fazia aula de educação física numa escola da rede municipal. Independentemente de onde e de quem tenham partido os tiros (e é óbvio que é preciso investigar, embora seja pouco provável que se chegue a uma condenação do(s) responsável(is) cumprindo os ritos legais, dadas as características sistêmicas, desde quando se chama a perícia até o martelo do juiz), o que se tem é a mesma lógica de operações policiais que supostamente vão combater o crime, mas que resultam num novo conjunto de crimes cometidos. Evidentemente, tais ações não acontecem nas avenidas Atlântica, Delfim Moreira, Visconde de Albuquerque, Sernambetiva ou Vieira Souto.

[O parágrafo acima foi acrescentado em 2/4, às 7h.]

Ainda sobre o tema, a Justiça Global faz um admirável trabalho de pesquisa, documentação, descrição, análise e denúncia dos crimes cometidos pelo Estado. Não tem sido diferente em 2017, como mostram essa nota pública e denúncia à Organização das Nações Unidas.

No estado do Rio de Janeiro, é preciso afirmar e argumentar que “casa é casa, não é base militar“, pois diariamente as forças policiais do Estado desrespeitam direitos básicos da população nas favelas.

*  *  *

A que ponto chegamos: “Governo Federal dá calote em vencedores de concurso de redação“. Considerando o pronunciamento do Mordomo de Filme de Terros no último dia 8 de março, vai ver a decisão tem a ver com o tema do certame: Construindo a Igualdade de Gênero.

*  *  *

O professor Marcos Pedlowski, da UENF, publicou em seu blogue excelente artigo analisando a pindaíba atual das universidades. Ao contrário do que muita gente acredita, pode não se tratar de algo conjuntural, mas também de uma estratégia para uma mudança estrutural: precarizar para privatizar. Um trecho:

O resultado é que estamos assistindo de camarote o desmanche do sistema universitário público brasileiro quase sem nenhuma resistência dentro das universidades.  Vejamos, por exemplo, o caso das três universidades estaduais do Rio de Janeiro (Uenf, Uerj, Uezo) que foram colocadas num completo estado de penúria por um (des) governo cuja legitimidade está jogada na sarjeta.  Entretanto, mesmo com salários atrasados e sem perspectiva de pagamento por causa da roubalheira que correu solta a partir de 2007 sob o comando do hoje presidiário Sérgio Cabral, não se vê uma reação sólida por parte de quem deveria dar o exemplo de que não se trabalha de graça.  Ao contrário, o que cada vez mais aparece é um ambiente que mistura desespero com resignação.

E, pior, como observador privilegiado do que acontece na Uenf, vejo ainda colegas que mesmo beirando a insolvência financeira insistem na pregação de que não se pode fazer greve porque isto causaria mais evasão estudantil.  Explico essa conjuntura que mistura letargia e marasmo a uma espécie de Síndrome de Estocolmo, onde os que estão sendo também vítimas da política de destruição do (des) governo do Rio de Janeiro se colocam como potenciais cúmplices caso decidam lutar pelos seus direitos.

A questão é explicar como se produziu essa variante da Síndrome de Estocolmo. Em minha opinião ela decorre de um forte analfabetismo político que caracteriza principalmente os docentes que, até recentemente, se colocavam acima dos dramas mundanos que assolam a maioria dos brasileiros pelo singelo fato de possuírem um título de doutor.  Agora que se veem assolados por uma crise que não ajudaram a criar, a maioria não sabe como reagir simplesmente principalmente por causa de seu analfabetismo político.”

Os cortes pesados no orçamento de 2017 relativo a Ciência, Tecnologia e Inovação (e, em percentuais menores, mas também graves e preocupantes, na Educação), agravarão a situação. As estaduais do RJ são a ponta de lança, mas se o processo não for barrado, logo logo chega a vez das federais.

*  *  *

Vladimir Safatle falou e disse sobre a aprovação do vale-tudo no mercado de trabalho pelo Congresso Nacional:

Na verdade, a função desta lei é acabar com a sociedade do emprego. Um fim do emprego feito não por meio do fortalecimento de laços associativos de trabalhadores detentores de sua própria produção, objetivo maior dos que procuram uma sociedade emancipada. Um fim do emprego por meio da precarização absoluta dos trabalhos em um ambiente no qual não há mais garantias estatais de defesa mínima das condições de vida. O Brasil será um país no qual ninguém conseguirá se aposentar integralmente, ninguém será contratado, ninguém irá tirar férias. O engraçado é lembrar que a isto alguns chamam “modernização”.

(…)

De fato, há sempre aqueles dispostos à velha identificação com o agressor. Sempre há uma claque a aplaudir as decisões mais absurdas, ainda mais quando falamos de uma parcela da classe média que agora flerta abertamente com o fascismo. Eles dirão que a flexibilização irrestrita aumentará a competitividade, que as pessoas precisarão ser realmente boas no que fazem, que os inovadores e competentes terão seu lugar ao sol. Em suma, que tudo ficará lindo se deixarmos livre a divina mão invisível do mercado.

O detalhe é que, no mundo dessas sumidades, não existe monopólio, não existe cartel, não existem empresas que constroem monopólios para depois te fazer consumir carne adulterada e cerveja de milho, não existe concentração de renda, rentismo, pessoas que nunca precisarão de fato trabalhar por saberem que receberão herança e patrimônio, aumento da desigualdade. Ou seja, o mundo destas pessoas é uma peça de ficção sem nenhuma relação com a realidade.

Mas nada seria possível se setores da imprensa não tivesse, de vez, abandonado toda ideia elementar de jornalismo.

Por exemplo, na semana passada o Brasil foi sacudido por enormes manifestações contra a reforma da previdência. Em qualquer país do mundo, não haveria veículo de mídia, por mais conservador que fosse, a não dar destaque a centenas de milhares de pessoas nas ruas contra o governo. A não ser no Brasil, onde não foram poucos os jornais e televisões que simplesmente agiram como se nada, absolutamente nada, houvesse acontecido. No que eles repetem uma prática de que se serviram nos idos de 1984, quando escondiam as mobilizações populares por Diretas Já!. O que é uma forma muito clara de demonstrar claramente de que lado sempre estiveram. Certamente, não estão do lado do jornalismo.”

*  *  *

Ainda sobre a terceirização ampla, geral e (praticamente) irrestrita, vale a pena ouvir esta entrevista de Carlos Dias, auditor fiscal do trabalho, ao Programa Faixa Livre.

 

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