Rapidinhas

O novo episódio do melhor jornalismo regado a óleo de peroba das Organizações Globo começou na quarta-feira, com um conjunto de fingimentos. Sobre a súbita mudança de direção da biruta das redações globais, recomendo este texto de Wilson Ferreira: “Delações da JBS deixam nu o jornalismo da Globo“. Um trecho:

O suposto “furo” na coluna de Lauro Jardim no jornal O Globo nada mais foi do que o sinal verde da cúpula das Organizações Globo.

Mais do que supostamente dar um “furo” e brincar de jornalismo investigativo, mais do que noticiar uma grave crise política, a Globo desvelou-se a si mesma: o seu jornalismo ficou nu como demonstrou a impagável propagação exponencial de olhos perplexos, gafes, atos falhos e palavras atropeladas no transcorrer dos telejornais.

*  *  *

Não tem problema. Isso foi na quarta.

Tentando manter a fama de mau e mostrar quem é que manda no país, o Globo Online passou a tarde de ontem tendo como chamada principal “A renúncia do presidente“. No primeiro momento, confesso, achei que o Mordomo de Filme de Terror renunciara. Ou seja, cometi um erro primário (e particularmente grave para quem estuda Comunicação desde 1997 e não acredita nas corporações de mídia): acreditei no jornalismo das Organizações Globo. Mas, que nada: eram apenas os bilionários da família Marinho e seus empregados (ou melhor, contratados como pessoas jurídicas) colunistas subitamente convertidos em críticos do governo e tentando moldar a realidade a seus desejos. E ainda há quem chame isso de jornalismo…

Na Teoria da Comunicação (bença, Mario Wolf, Ilana Polistchuck e Aluizio Trinta), este tipo de prática foi conceituada como agendamento, ou agenda-setting. Neste caso global, elevado à enésima potência.

O inacreditável exercício de wishful thinking, ou de jornalismo de ficção, continuou hoje (sábado). Eis uma captura de tela do mesmo Globonline, ao meio-dia: “A renúncia do presidente e os principais destaques desta sexta“. Ou seja, o que a chamada anuncia é o mundo paralelo do próprio Globo Online. Foi o que aconteceu na sexta-feira (a publicação de um editorial chamado “A renúncia do presidente”). Ora, de novo, isto dá a entender a algum distraído, desavisado ou leitor de boa-fé que o presidente renunciou ontem.

“Se você ainda não viu… A renúncia do presidente”… que não aconteceu! Admito que é genial, dependendo do ponto de vista. Aguardo para os próximos dias:

– “Se você ainda não viu… Saci-Pererê”

– “Se você ainda não viu… O cumprimento da Constituição Federal de 1988”

– “Se você ainda não viu… Cabeça de Bacalhau”

– “Se você ainda não viu… Instituições privadas de ensino superior cumprindo a CLT e demais leis”

– “Se você ainda não viu… Ciência brasileira, com amplo apoio do Estado, ganha Prêmio Nobel”

*  *  *

No jornalismo realmente existente nas corporações de mídia, tem de tudo… Organizações Globo resolvendo rifar o Mordomo de Filme de Terror e, com um pouco menos de escândalo, o Mineirim.

A ditabranda Folha de S. Paulo, segundo este texto, vem apontando em direção diferente.

Sobre o jornalismo que as corporações de mídia cometem no Brasil, recomendo ainda:

– Carlos Motta: “A imprensa e a tragédia“. Um trecho: “Todos os jornalistas que cobrem política sabem, há muito tempo, que esse bando que tirou a presidenta Dilma do Palácio do Planalto é formado por escroques da pior espécie. Se ninguém nunca fez uma mísera reportagem, escreveu uma linha sequer sobre as negociatas desses parlamentares é porque, de certa forma, estiverem aliados a eles, e não porque desconhecessem os crimes;

*  *  *

Um dos principais problemas dos escândalos dessa semana, novamente, é o linchamento midiático. Sobre isso, poucas vozes têm se insurgido. Uma delas é o sempre correto e admirável Pedro Serrano: “Afastamento de Aécio foi ação ilegítima do STF“. Por falar em STF, num país em que as concessionárias de radiodifusão, há décadas, desrespeitam a Constituição; e em que o Supremo também o faz… é possível garantir que vivemos numa democracia?

Outro problema é que, como agora as vítimas do linchamento são figuras da direita, boa parte dos jornalistas, blogueiros e figuras da esquerda participa com ferocidade do linchamento. Dois pesos e duas medidas.

*  *  *

Só um inocente que não sabe de nada, como diria Cumpadre Washington, acredita que todas as cartas sendo jogadas na política brasileira estão sobre a mesa e foram divulgadas pelas corporações de mídia. Esse texto e os comentários feitos a ele pelos leitores dão alguns indícios do que pode estar em jogo e do que tem rolado em Brasília e em Curitiba.

*  *  *

Da série A política de isenções fiscais do PMDB no Rio de Janeiro, a miséria estadual e municipal que cabe aos cariocas e fluminenses, duas notícias:

– Uma, sobre as recentes delações da JBS.

– Outra, sobre os calotes dados pelo Comitê Organizador Rio 2016. A matéria, convenientemente, não fala que o Comitê Olímpico Internacional levou embora a bufunfa dos lucros do evento graças às isenções fiscais concedidas e assinadas por Eduardo Paes (e também pelos governos federal e estadual, configurando, como argumentei, que a pilhagem via megaeventos esportivos constitui uma política de Estado – e não de governo – no Brasil)

*  *  *

[Atualização em 20/5/2017, às 17h30: após mais de um dia de mentira, finalmente o Globo Online resolveu classificar “A renúncia do presidente” como “A opinião do Globo”…

Da série óleo de peroba, na mesma imagem, a atuação do PSB. Bem fizeram Luiza Erundina e Roberto Amaral, que abandonaram o barco quando este se mostrou navegando irremediavelmente para a direita.]

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: