Archive for the ‘Direitos Humanos’ Category

Seriam “de uso exclusivo da Polícia Federal”?

18/3/2018

A ser verdadeiro o conteúdo desta notícia – “Munição usada para matar Marielle é de lotes vendidos para a Polícia Federal” – e o que o título sugere (não vou sair acreditando no que diz a emissora só porque, nesta rara ocasião, parece fazer algum sentido), fico pensando no seguinte:

 

1) Só esta semana o telejornalismo da Rede Globo descobriu onde trabalham alguns dos criminosos que fornecem munições para criminosos? No mínimo, estavam mal informados.

 

2) A “descoberta” não irá modificar a cobertura cotidiana de crimes, assassinatos, violência etc.

 

3) Fica, no mínimo, ridículo o inacreditável ministro extraordinário da Segurança Pública (sic) do Mordomo de Filme de Terror oferecer ajuda da Polícia Federal nas investigações.

 

4) Um trecho da reportagem: “A munição desse mesmo lote foi usada na maior chacina de São Paulo, em 2015, quando 17 pessoas morreram, e nos assassinatos de cinco pessoas em guerras de facções de traficantes em São Gonçalo, na Região Metropolitana do Rio. Na época da chacina paulista, foram apreendidas cápsulas de outros quatro lotes, que pertenciam, além da PF, à PM paulista e ao Exército.”

 

E ainda há quem acredite nesta intervenção e quem ache que se combate o crime combatendo as favelas e os que nela moram, trabalham, vivem e transitam. Seria mais eficaz mirar batalhões, delegacias, quartéis, bases militares etc. – isto para não falar dos Palácios Guanabara e Tiradentes, já que o crime, aqui no RJ, é organizado a partir de cima.

 

5) Por falar nisso, tampouco adianda olhar apenas para as polícias, como argumenta Vinicius George: “É impensável você querer, setorialmente, querer resolver (…) Vou resolver, setorialmente, o problema da corrupção na polícia. E o governo [do estado do Rio] é um oceano de corrupções. O Executivo, o Legislativo e o Judiciário, incluindo o Ministério Público e o Tribunal de Contas, estão passeando nesse oceano. Como se resolve um setor? É impossível. (…)”

Quem fala é um delegado de polícia e ex-presidente do sindicato dos delegados – e TAMBÉM um militante de esquerda. Afinal, é óbvio que uma coisa não exclui a outra.

A longa conversa entre ele e o entrevistador tem trechos tão bons e esclarecedores quanto o que transcrevi acima. Esclarecedores para quem se dispõe a ouvir e raciocinar, evidentemente.

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Rapidinhas

8/3/2018

“Para o general, o Brasil está prestes a virar um narcopaís, mas isso pode ser evitado resgatando as lições de um dos piores episódios da ditadura. “A Colômbia ficou 50 anos em guerra civil porque não fizeram o que fizemos no Araguaia”, disse, sendo vivamente aplaudido pelo auditório predominantemente militar.

O que o Exército fez no Araguaia foi executar mais de 40 guerrilheiros detidos. Crime, mesmo em tempos de guerra. Mas, para isso, também há solução: “Nosso ordenamento jurídico precisa de patriotismo para acelerar determinadas providências e permitir que a gente tenha resultados que nos animem a retomar o protagonismo do Estado no uso da violência.””

Rio, Haiti, Araguaia“, de Marco Aurélio Canônico. O fascismo está vivo e forte, ao menos entre certos setores da nossa população e de servidores públicos.

*  *  *

Cid Benjamin, no Programa Faixa Livre, sobre a possível greve dos juízes: “E uma pergunta se impõe: com a greve, será que vai ter bala de borracha e gás de pimenta contra os meretíssimos, como acontece com outras categorias profissionais?

Ao longo dos anos, ouvi muitos relatos tenebrosos de colegas professores das redes municipal e estadual do Rio a respeito do tratamento recebido da polícia militar. Eu mesmo fui testemunha disto em algumas ocasiões – o comportamento da polícia é nitidamente diferente de quando estive em passeatas de servidores federais.

Alguém tem dúvida de qual padrão prevaleceria caso os juízes entrassem em greve e fechassem ruas?

 

 

Um vídeo

1/11/2017

Pingou na caixa postal a excelente videorreportagem Bala Perdida, da Agência Pública. Um dos muitos méritos é problematizar a própria expressão “bala perdida”, que sugere um caráter aleatório a algo que, no fim das contas, não é.

O recado de Ibis Pereira, ex-comandante geral da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro, é claro e direto, ao dizer que o remédio é “mais direitos humanos para todos”. Ainda segundo ele, o problema é que a sociedade está recusando o remédio.

 

 

 

 

Carnê de IPTU 2007: Jogos Pan-Americanos, Cidade Olímpica e o Rio do PMDB

20/8/2017

 

Contracapa do carnê de Imposto Predial e Territorial Urbano de 2007, emitido e cobrado pela Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro.

A peça de ficção acima, fruto de imensa criatividade, é a contracapa do carnê de IPTU de 2007 da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro. Em dia de arrumação e de procurar papelada, achei essa maravilha, retrato de um momento. Fica aqui a imagem, quiçá uma fonte histórica para pesquisadores no futuro.

O prefeito à época era Cesar Maia (PFL). Foi sucedido no cargo por uma de suas crias políticas. Naquele fim de século, as Organizações Globo foram ativas formuladoras e apoiadoras de políticas públicas executadas pelos governos Eduardo Paes (PMDB, Prefeitura da capital) e Sérgio Cabral Filho (PMDB, governo estadual); e também beneficiárias de polpudos recursos estatais, sobretudo na área de cultura. Em fevereiro de 2014, escrevi o seguinte:

“Hoje fui ver uma exposição – interessante, diga-se de passagem, sobre surfe e skate – no Museu de Arte do Rio. A instituição foi concebida e executada pela Fundação Roberto Marinho e pela Prefeitura do Rio. Tem patrocínio das Organizações Globo. O dinheiro que sai por uma mão rapidamente é apanhado pela outra. Público e privado entram na batedeira e rodam de uma mão para outra, em loop, tal como limões alçados por um menino num sinal.”

(Alô, ministérios públicos… Alô, Lava-Jato! As corporações de mídia brasileiras são as únicas empresas nacionais, junto com os bancos, cujos donos bilionários não são picaretas, não corrompe(ra)m ninguém, não mantém relações espúrias e suspeitas com o Executivo, o Legislativo e o Judiciário? Conta outra! Vamos investigar!)

Agora que a cidade é governada por um representante da principal emissora de TV concorrente (Record), foi permitido aos trabalhadores dos veículos das Organizações Globo voltar a fazer um pouco de jornalismo, em lugar do noticiário predominante durante os mandatos anteriores, chapa-branca e baba-ovo de figuras que agora estão presas ou às portas de, como o ex-xerife do choque de ordem (em artigo científico publicado em 2010, analisando as capas de O Globo durante os cem primeiros dias do governo Eduardo Paes, eu e um colega afirmamos: “Do ponto de vista da construção da notícia, os textos apresentam reiteradamente o prefeito e o secretário de Ordem Pública como enunciadores dos conteúdos correspondentes às chamadas. Às vezes isso ocorre em dias seguidos, como no início de janeiro, quando o espaço à esquerda da capa constituiu uma espécie de cantinho do secretário.“) e o bilionário que ganhou o Maracanã, a Marina da Glória, o Porto do Açu e vários outros mimos.

Como agora estão na oposição ao bispo prefeito, tais corporações de mídia afirmam que o atual vice-prefeito não paga IPTU desde 2001. O ex-ministro da Coração Valente, quando senador, foi autor de iniciativas legislativas para aumentar a farra de isenções das igrejas. Por exemplo, isentar de pagamento de IPTU a igreja que for inquilina. Com a proposta, as prefeituras deixam de arrecadar recursos que poderiam financiar a contratação de funcionários públicos para garantir direitos da população, ou salários menos indecentes para alguns deles (como os professores), e sobra mais dindim após passar as sacolinhas (bênção, Chico Anysio!).

O goveno estadual do Rio faliu antes mesmo do início dos Jogos Olímpicos de 2016. A Prefeitura do Rio está às portas da falência – já anda atrasando salários da área da saúde, fazendo não se sabe o que com recursos carimbados que vêm direto do Ministério da Saúde. (A gestão de amplas fatias do orçamento da saúde foi doada a organizações sociais que fazem a farra com os recursos, sem qualquer controle da Prefeitura, polícia, MP, tribunais de contas etc. A isso se chama “modernização administrativa e gestão”, modelo colocado em prática pelo PSDB, pelo qual já passaram Cabralzinho e Duda. Em se tratando dos partidos da ordem, está tudo junto e misturado. Não custa lembrar que, na gestão de Paes finda em 2016, o vice-prefeito era do Partido dos Trabalhadores; na campanha de 2008, a CUT-RJ apoiou-o; a então presidente da entidade afirmou que o projeto “do Eduardo Paes representa a possibilidade de avanços para a classe trabalhadora“. Com lideranças com tal capacidade de avaliação política, não surpreende que a classe trabalhadora esteja levando ferro em cima de ferro.)

O ginásio do Maracanãzinho e parque aquático Júlio Delamare permanecem fechados. O estádio de atletismo foi destruído. Mesmo o saqueado e esculachado Maracanã recebe poucos eventos por mês. Ao lado, a UERJ está à beira de fechar. Nas proximidades, o tiro come solto quase todo dia no Morro dos Macacos, em Vila Isabel, e no São João, no Engenho Novo. O ex-governador, o bilionário e um ex-secretário de obras da Prefeitura estão presos. Colegas de gestão e de partido, contudo, continuam governando o estado e presidindo a Assembleia Legislativa, como se nada tivessem a ver com os esquemas anteriores.

O Estádio Olímpico não se chama mais João Havelange. Para o que foi a gestão de recursos dos Jogos Pan-Americanos, e a imensidão de dinheiro que se gastou para construir um estádio superfaturado que pouco depois fechou porque o teto ameaçava cair, tratava-se de uma justa homenagem a este prócer do esporte brasileiro e grande amigo das Organizações Globo.

A tal “Cidade dos Esportes” estampada no carnê não existe mais. Foi ampliada, gastando-se um mundaréu de dinheiro público e violando-se trocentos direitos humanos e garantias fundamentais (durante parte do governo Eduardo Paes, o secretário de Habitação da Prefeitura que violava o direito à moradia de centenas de famílias era Jorge Bittar, do PT), para se tornar o Parque Olímpico. Este, por sua vez, é composto por dezenas de equipamentos fechados e/ou abandonados, que para nada servem, mas custaram e custam um dinheirão. Parque Olímpico, Cidade dos Esportes: nomes-fantasia de um projeto de rifar a cidade, bem como os recursos, imóveis, terrenos, instituições e setores do serviço público para especuladores, bilionários e/ou bandidos, brasileiros e estrangeiros. O COI levou embora centenas de milhões de reais de lucro da Olimpíada, enquanto o Comitê Organizador segue firme sua política de calote olímpico. Ministério Público, polícia e Poder Judiciário fazem cara de paisagem. Em 6/8, o jornalista Elio Gaspari escreveu o seguinte na ditabranda Folha de S. Paulo:

“O ex-prefeito do Rio Eduardo Paes precisa de um banho de folhas de arruda. Na quinta-feira deu aos cariocas um longo artigo falando bem de Eduardo Paes e comemorando sua Olimpíada.

O sujeito lia o texto do doutor, aprendia que sua gestão foi exemplar e estão aí obras como a linha da Transcarioca. O infeliz ligava a televisão e via a Polícia Federal levando para a cadeia Alexandre Pinto, secretário de Obras de Paes, acusado de morder as empreiteiras que fizeram a obra da Transcarioca.”

“XV Jogos Pan-Americanos: Ganha a Cidade, ganha o turismo, ganha você”: mais uma ficção numa era repleta de inveções e mentiras amplificadas pelas Organizações Globo como se fossem uma maravilha. Na cidade olímpica:

  • Onibus é chamado de “metrô de superfície”;
  • Tapumes para esconder as favelas em torno da Linha Vermelha dos que chegam ao aeroporto internacional são denominadas “barreira acústica“;
  • O próprio terminal 1 do Galeão, que ficou anos sendo reformado pelo Governo Federal (alô, Coração Valente!), está fechado. O dinheiro público foi gasto antes de se privatizar o aeroporto, evidentemente. Ajeitou um terminal que hoje não recebe voos ou passageiros;
  • Muros para cercar os pobres é chamado de “ecolimite“;
  • Ações frequentemente ilegais de criminalização da pobreza e de repressão a camelôs e ambulantes são celebradas como “choque de ordem”;
  • A Chacina do Pan foi saudada pela revista Época, também da família Marinho, pela “inovação” no combate ao crime.

A roda continua girando, nos poderes municipal, estadual e federal. Fecho com o mesmo Elio Gaspari, no The Globe de hoje:

“Quem acreditou que o prefeito Marcelo Crivella mudaria os métodos nas negociações com o aparelho da Fetranspor não comprou gato por lebre. Comprou gato por gato.

Um dos conselheiros de Crivella era Rodrigo Bethlem, que havia sido o “xerife” da ordem pública de Eduardo Paes e quindim da máfia das empresas de ônibus.

Paes foi aquele prefeito que pretendeu multar os cariocas que jogassem guimbas de cigarro na rua. Hoje ele vive em Nova York.

Um texto + uma entrevista

21/4/2017

Li e recomendo veementemente: Eliane Brum, num texto espetacular, merecedor de todos os elogios, daqueles que dignificam a profissão de jornalista (tão avacalhada pelas empresas de comunicação e, em alguma medida, também por muitos profissionais): “Escola Sem Pinto“. Um dos trechos, digno de antologia, a respeito do projeto “Escola Sem Partido”:

“Nesta manipulação, vendida à sociedade como um projeto restaurador da ordem (mas qual ordem?), o problema não seria a escola caindo aos pedaços, os professores mal pagos, a falta de estrutura material e pedagógica, mas uma suposta “doutrinação ideológica” praticada por professores “esquerdistas”, “comunistas” e moralmente desvirtuados a serviço do mal. (Com a esquerda mal parando em pé, isso deveria ser piada, mas não é, já que uma das consequências da ignorância é sua vítima não entender piada, muito menos humor ou ironia.)”

Confesso que também pensei nas variáveis misoginia e covardia ao ler sobre a reação à obra, considerando que ela é de três autoras (mulheres). As respostas da professora que escreveu o capítulo denunciado – Mônica Waldhelm, do CEFET/RJ – são excelentes. A entrevista compõe um texto que dignifica o trabalho docente e mostra o quanto de pesquisa e reflexão é realizado antes que muitos livros didáticos sejam escritos e publicados. Dá orgulho fazer parte de uma rede de ensino federal em que há profissionais de tal calibre refletindo e produzindo conhecimento sobre nossa sociedade. Apesar de todos os problemas enfrentados, da política salarial etc.

Rota 66, 25 anos depois

1/4/2017
Escrevi o texto abaixo ontem (sexta-feira, 31 de março de 2017) para enviar a alguns amigos. Achei melhor publicá-lo por aqui.
*  *  *

Caros(as),

Infelizmente, mais do mesmo.

http://extra.globo.com/casos-de-policia/pms-flagrados-executando-dois-homens-sao-envolvidos-em-37-autos-de-resistencia-21141468.html

Todos mortos em favelas da Zona Norte, todos levados para o hospital (inviabilizando a perícia e fazendo pagar de humanitário quem “socorreu”), todos os mortos estavam com armas que foram apresentadas pelos executores na delegacia, usadas para “trocar tiros com a polícia”. Só não se informa se todos eram jovens e tinham a cor da pele parda ou negra – mas isso é fácil imaginar, não é mesmo? É realmente impressionante como funcionários públicos mal-remunerados, com ou sem salário atrasado, seguem à risca o roteiro-padrão conhecido por todos. Seguiriam até se aposentar, provavelmente. Afinal, matar não é problema, o problema é alguém filmar e cair na internet. Esses talvez sejam afastados e julgados (julgamento justo ou não é difícil saber se haverá, considerando as variáveis “justiça militar” e “condenação/linchamento midiático”, cada uma jogando numa direção), tratados como bode expiatório. Talvez, não.

Todos os outros que fazem isso desde não sei que década, e os que entraram há pouco na corporação e estão começando a aprender o roteiro, continuarão fazendo tranquilamente. Quem se importa?

A matéria trata apenas dos casos que foram registrados em DP e, portanto, entraram nas estatísticas estatais – que servem para pouco mais do que fins estatísticos, ou seja, são praticamente um fim em si mesmas. Raramente servem para investigação e solução pontual (caso a caso), quanto mais para subsidiar a tomada de decisões macro de políticas públicas de segurança. Estas são realizadas com base noutros critérios. Ontem à tarde, por exemplo, um PM reformado foi assassinado numa troca de tiros nas Lojas Americanas da 28 de Setembro, a uma quadra e meia aqui de casa. É impressionante como policiais atraem a proximidade de balas, tiros e criminosos quando estão de folga ou depois que se aposentam. Aparentemente, isto não tem nada a ver com o tipo de trabalho, com as políticas do governo do estado ou com as condições salariais e laborais destes funcionários públicos. Fica parecendo algo cósmico, magnético ou inexplicável: tem sempre um PM de folga nos locais de roubos, e ele sempre decide trocar tiros com os ladrões em vez de continuar seu caminho. O dever sempre chama.

Hoje a 28 de Setembro está cheia de policiais, do início ao fim. A UERJ e a área do Maracanã continuam abandonadas; o desemprego grassa graças à política econômica suicida que temos desde o fim de 2014; é fim de mês e mesmo quem tem trabalho tá duro; a demanda por drogas nas bocas da vizinhança deve estar igual ou maior do que nunca. Provavelmente os PMs de farda aqui na esquina de casa estão com os salários atrasados e vão trabalhar (mesmo que a lei proíba) também nas 72 horas de folga: na segurança, no bico, no táxi, ou _________ (complete como quiser). Quem se importa?

Abraços,

Rafael

P.S.: Quem assina a matéria do Extra é um homônimo, mas não o conheço.

P.S.2: Para quem não conhece, o livro do jornalista Caco Barcellos é uma obra-prima. Infelizmente, o modus operandi que narra continua em vigor nas quebradas do Rio, de Sampa e doutros lugares do nosso país.

Um vídeo

9/12/2016

O deputado federal Jean Wyllys (PSOL/RJ) faz um antológico depoimento no Conselho de Ética e Decoro Parlamentar da Câmara dos Deputados. (Anteontem, 6/12/2016)

Um filme

11/11/2016

 

 

Vale a pena ver este excelente e belo documentário: Lute como uma menina! Dirigido por Flávio Colombini e Beatriz Alonso, trata das ocupações de escolas públicas iniciadas em novembro de 2015, em São Paulo. O movimento luta(va) contra o fechamento de escolas públicas imposto pelo governo Geraldo Alckmin (PSDB).

Com boa parte da esquerda e do mundo sindical – incluindo o movimento docente dos professores universitários – enfrentando imensas dificuldades para unificar as lutas e atrair as pessoas para delas participar, a esperança vem dos estudantes. Mais ainda, das estudantes. Quem dá aula – de luta pela educação pública, pelo presente e pelo futuro – são elas.

O Brasil será melhor se escutar o que estas (e outras) garotas dizem.

(via Viomundo)

Sobre a proposta de aumentar a idade mínima de aposentadoria

16/6/2016

A retirada de recursos da Previdência Social por sucessivos governos, permitida por mecanismos como a Desvinculação de Receitas da União (DRU), prejudica sensivelmente as contas da seguridade social. Sem DRU, sem se tirar dinheiro do orçamento da seguridade social para outros fins, a Previdência Social brasileira é superavitária. Já escrevi isso trocentas vezes aqui, reproduzindo um ponto de vista expresso por diversos órgãos, entidades e indivíduos – por exemplo, o senador Paulo Paim, do PT, um dos únicos a manter a lucidez até os dias atuais. (Em tempo: o PT era contra a DRU quando era oposição, e passou a defendê-la e usá-la quando assumiu o governo federal.)

As corporações de mídia promovem um massacre informativo mentindo diariamente ao afirmar que há um déficit na previdência. O Governo de Temer, O Ilegítimo, surfando nesta onda de mentiras, propõe aumentar a idade mínima para a aposentadoria. Há, pelo menos, três sacanagens embutidas nesta ideia:

a) Rompe-se um contrato com os trabalhadores que estão na ativa e contribuem para a previdência. Em outras palavras, mudam-se as regras do jogo com o jogo em andamento. É como se você começasse a correr uma maratona e, no meio do percurso, estendessem a linha de chegada em mais 5 ou 10 quilômetros – você que se dane. Os colunistas vendidos de economia e de política das corporações de mídia, que sempre defendem o respeito aos contratos quando se trata dos direitos de empresas, estão todos favoráveis a este descumprimento unilateral de contrato que prejudicará os trabalhadores.

b) Perversamente, a medida prejudicará ainda mais aqueles que começaram a trabalhar mais cedo, tiveram menos anos de estudo, e fizeram trabalhos que degradaram mais o corpo. Quanto mais se investe no tempo absoluto (idade) e menos no tempo relativo (anos de contribuição), mais se pune quem começou a trabalhar cedo.

c) Trata-se, no fundo, de fazer os trabalhadores pagarem a conta da crise. Em outras palavras, a medida é uma entre muitas que compõem a disputa pelos gastos do Estado, em que o capital quer aumentar sua já imensa fatia à custa da redução da fatia dos trabalhadores. O governo de Temer, O Interino, aprofunda e avança medidas já em vigor durante os mandatos anteriores do PT e do PSDB.

O massacre informativo é fundamental para disseminar socialmente a crença de que a previdência estatal não garantirá um fim de vida digno e sossegado para os trabalhadores e que a saída é botar dinheiro nos planos de previdência privada dos bancos (que estão longe de ser garantia de renda). Ora, de fato, a previdência estatal paga a muitos trabalhadores aposentadorias abaixo do que eles deveriam receber, considerando o valor das contribuições. Contudo, a saída é parar de tungar recursos dela, fortalecê-la e ir corrigindo o sistema, em vez de esfacelá-lo e destruí-lo. Se a situação social no Brasil é calamitosa com as regras e o sistema de hoje, ficará muito pior se forem aprovadas as propostas do presidente exterminador de ministérios (no que também teve seu trabalho facilitado pelo trágico e indefensável segundo governo da Coração Valente), como o aumento da idade mínima para aposentadoria e o aumento da DRU para 30% (medida com terríveis impactos sobre a seguridade social e outros setores; mas que não é criticada pelos comentaristas de direita das corporações de mídia, uma das evidências de que querem é a destruição da previdência estatal).

Um dia, talvez, tenhamos uma Comissão Parlamentar de Inquérito ou uma investigação séria do Ministério Público Federal ou da Polícia Federal sobre caixinha de empresas para comentaristas defenderem determinados pontos de vista. Acredito que os bancos e planos de previdência privada aparecerão entre os corruptores.

Sobre golpe, governo Dilma, políticas neoliberais, corporações de mídia e o bom e velho Brecht

24/3/2016

Enquanto a Coração Valente discursa, coberta de razão, classificando como golpe aquilo que diferentes setores da direita estão articulando, seu governo de direita segue firme e forte na execução de políticas neoliberais. Vem aí novo corte de 21 bilhões no Orçamento. Evidentemente, não se fala – nem agora, nem nestes 13 anos de governo petista – em reduzir gastos zerando a taxa Selic e as verbas de publicidade federal em meios de comunicação golpistas, ou auditando a dívida pública, ou evitando realizar megaeventos esportivos como Copa do Mundo e Jogos Olímpicos. Neste aspecto, os governos (supostamente) de centro-esquerda caminham de mãos dadas com os rumos preconizados pelas editorias de economia das corporações de mídia – apesar de franca antipatia e desconfiança de parte a parte. Nenhum membro do governo ou das corporações de mídia se digna a perguntar ao senador Paulo Paim (PT/RS) se ele concorda com a falácia repetida ad nauseum de que a Previdência é deficitária – muito menos deixá-lo apresentar argumentos. (Aliás, cabe perguntar: por que Paulo Paim nunca foi ministro da Previdência ou do Trabalho dos governos do Partido dos Trabalhadores?)

O vocabulário da notícia sobre os cortes no Orçamento – denomiados “contingenciamento” – é o mesmo que tem predominado nos governos federais do Partido dos Trabalhadores (PT), e revela o quanto os pressupostos e valores neoliberais estão incorporados no governar e noticiar. Até um tempo atrás, era comum os governos brasileiros alegarem que executavam políticas neoliberais por serem obrigados a fazê-lo como contrapartida aos empréstimos de organizações como o Fundo Monetário Internacional (FMI). Desde o governo Lula, o Brasil está livre destes empréstimos. Do ponto de vista da política econômica executada pelo governo, contudo, isto pouco ou nada importa: os valores do antigo senhor foram incorporados pelo vassalo. O senhor se foi, mas o vassalo continua observando obedientemente as regras que se acostumara a obedecer. Afinal, entre os criados sob chibata, é comum crer que bom comportamento livra o lombo de apanhar mais.

*  *  *

Resumo da ópera: enquanto tentamos salvar a democracia – e, indiretamente, o governo Dilma – das garras das direitas, o governo Dilma segue executando políticas neoliberais e contrárias aos setores que o defendem.

Paulo Henrique Amorim saudou que o movimento “é maior do que o PT” e também do que Dilma e Lula. Ora, evidente que sim! Até porque não se trata, no meu caso e no de muita gente, de defender um governo indefensável – do ponto de vista da esquerda – como o da Coração Valente. Trata-se de defender o respeito à vontade popular, à legalidade e a tudo que custou muito construir. Nossa democracia tem muitos limites, mas temos que melhorá-la, e não abandoná-la. Democracia não é um destino, mas o caminho e o caminhar.

Nesta jornada, ai de quem acreditar que poderá contar com ajuda ou iluminação de meios de comunicação como os da Editora Abril e das Organizações Globo. Aproveitando o ensejo do discurso (justificadamente) indignado no dia em que foi preso, mas não foi preso, cabe perguntar: quantas vezes mais, em sua vida política, Lula vai “descobrir” que a Globo é antidemocrática e fecha com os piores setores da sociedade brasileira?

Apesar dos notáveis avanços no combate à pobreza, na política cultural e nas relações exteriores, me decepcionei com os governos de Lula, e a leitura dos textos deste blogue durante o período evidenciam isto. Contudo, comparados aos de Dilma, são excelentes. Na verdade, à medida que o tempo passa e avança este tenebroso novo mandato da Coração Valente, o governo Lula vai ficando cada vez melhor aos meus olhos. Digo isso com lamento, mas sem surpresa. Achei muito ruim a escolha de Dilma como sucessora, tanto por seu perfil, quanto pelo fato de que a escolha passava por cima de diversas lideranças do partido que poderiam ter sido alçadas ao posto central – Martha e Eduardo Suplicy, Tarso Genro, Aloizio Mercadante. Ou mesmo lideranças de partidos historicamente da base, como Luiza Erundina, Ciro Gomes e Eduardo Campos. Para isto, evidentemente, o Grande Líder precisaria aceitar a existência de liderança além da sua, o que prejudicaria o papel de mito. Não aconteceu.

Tenho sérias dúvidas se, mesmo após deixar o governo federal, o PT fará estes e outros acertos de contas e autocríticas.

*  *  *

Como venho dizendo há semanas, o melhor espaço que encontrei para entender e acompanhar o que está acontecendo são os textos de Luis Nassif, publicados em seu site. (Há textos de outras pessoas publicados ou reproduzidos no site, mas variam muito: uns considero excelentes e esclarecedores; noutros, vejo muitos problemas.)

Na análise de ontem (quinta-feira), além de informações e comentários primorosos, fiquei sabendo que uma repórter do Estadão foi perseguida pela Lava-Jato. Como se trata da operação do bem, (aparentemente) fica tudo bem. Afinal, os visitantes não perguntaram se a dona da casa era petista e até foram simpáticos com o cachorro – e, imagino, não tenham deixado grampo no sofá. Pelo jeito, vai levar tempo até que mais gente entenda que a situação brasileira é parecida com a narrada no “Intertexto“, de Bertold Brecht. Boa parte da sociedade e da imprensa prosseguem com a ideia do bem contra o mal, nós contra eles.

(Em tempo: nunca me animei com a prática de escrachos feitos por jovens contra militares que (supostamente) cometeram crimes durante a ditadura civil-militar (1964-1985). Setores da esquerda organizaram tais práticas ou lhes deram visibilidade e apoio. Entendo os motivos de tais atos e considero injustificável a impunidade. Mas, por motivos como o aviso de Brecht, sempre considerei discutível tal prática. Agora setores da esquerda reclamam do fascismo de quem aparece na soleira de certas residências para protestar, encher o saco, ameaçar ou cometer crimes. Talvez seja tarde.)

*  *  *

Paulo Henrique Amorim, pró-governo, definiu muito bem: “depois de 5 anos e dois meses, Dilma nomeou um Ministro da Justiça!” Torço muito para que a escolha de Aragão neste mês de março não tenha vindo tarde demais. Adendo: “ficar sem” ministro é a melhor avaliação que se pode fazer. A de Luis Nassif é pior…

Comparo o ex-ministro com os ocupantes do cargo durante o governo Lula, ou com Wadih Damous, deputado federal (PT/RJ) que vem tendo uma conduta exemplar, e chego à pergunta: como e por que o governo da Coração Valente manteve Cardozo por tanto tempo naquele ministério?

A mesma pergunta pode ser feita com relação a boa parte ministério, incluindo o ministro da Educação, Aloizio Mercadante, cuja atuação já comentei algumas vezes neste blogue.

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Considerando que estamos num momento de crise, seria o caso de as corporações de mídia ouvirem as lideranças que consideram relevantes. Por exemplo, o ex-presidente José Sarney (PMDB/AP). Ocupou numerosos cargos de destaque, como as presidências da República e do Senado. Imortal da Academia Brasileira de Letras e colunista da ditabranda Folha de S. Paulo, o que tem a dizer sobre o atual momento? Com que setores está se aliando? Que rumos seguem seus filhos (todos envolvidos no universo da política)? O que têm a dizer outras lideranças relevantes como Garotinho, Jader Barbalho, Cabralzinho, Eduardo Azeredo e Paulo Maluf? Os atuais prefeitos da Cidade Olímpica, Eduardo Paes (PMDB) e de Salvador, ACM Neto (PFL)? Não sabemos, nem as corporações de mídia, sócias do poder, se interessam em perguntar.


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