Archive for the ‘Educação’ Category

Um texto + uma entrevista

21/4/2017

Li e recomendo veementemente: Eliane Brum, num texto espetacular, merecedor de todos os elogios, daqueles que dignificam a profissão de jornalista (tão avacalhada pelas empresas de comunicação e, em alguma medida, também por muitos profissionais): “Escola Sem Pinto“. Um dos trechos, digno de antologia, a respeito do projeto “Escola Sem Partido”:

“Nesta manipulação, vendida à sociedade como um projeto restaurador da ordem (mas qual ordem?), o problema não seria a escola caindo aos pedaços, os professores mal pagos, a falta de estrutura material e pedagógica, mas uma suposta “doutrinação ideológica” praticada por professores “esquerdistas”, “comunistas” e moralmente desvirtuados a serviço do mal. (Com a esquerda mal parando em pé, isso deveria ser piada, mas não é, já que uma das consequências da ignorância é sua vítima não entender piada, muito menos humor ou ironia.)”

Confesso que também pensei nas variáveis misoginia e covardia ao ler sobre a reação à obra, considerando que ela é de três autoras (mulheres). As respostas da professora que escreveu o capítulo denunciado – Mônica Waldhelm, do CEFET/RJ – são excelentes. A entrevista compõe um texto que dignifica o trabalho docente e mostra o quanto de pesquisa e reflexão é realizado antes que muitos livros didáticos sejam escritos e publicados. Dá orgulho fazer parte de uma rede de ensino federal em que há profissionais de tal calibre refletindo e produzindo conhecimento sobre nossa sociedade. Apesar de todos os problemas enfrentados, da política salarial etc.

Anúncios

Uma breve homenagem a Bert J. Barickman (1958-2016)

13/11/2016

A maré está mesmo ruim. Pingou na caixa postal uma notícia muito triste. Partiu o professor Bert J. Barickman, da Universidade do Arizona (EUA), especialista em História do Brasil.

Por volta de 2002, 2003, eu era um estudante de graduação em História na Universidade Federal Fluminense (UFF), quando, não lembro em que contexto, comentei com a professora de História do Brasil II que estava pensando num projeto de doutorado para pesquisar revistas de surfe (eu também fazia mestrado em Comunicação). Ela prontamente sugeriu que eu entrasse em contato com um professor americano, que falava fluentemente português e vinha sempre ao Brasil, e que estava iniciando uma pesquisa sobre a praia no Rio de Janeiro. “Pode escrever para ele em português”, ela me disse.

Bert respondeu meu email com um português e uma simpatia que me surpreenderam. Ao nos encontrarmos para tomar umas cervejas no Arco do Teles (numa época em que a entrada do arco ainda se enchia de mesas e cadeiras), deu várias dicas para o meu projeto e me estimulou a prosseguir com o tema. Mantivemos contato, e, ao longo dos anos, trocamos ideias e referências, e nos encontramos nas ocasiões em que ele veio ao Rio de Janeiro. Bert preferia o português de Portugal, ainda que um pouco desbotado pelas muitas visitas ao Rio. Escrevia em português praticamente com a mesma fluência de seu inglês nativo. Adorava Copacabana.

Bert pesquisou apaixonadamente o Brasil durante décadas. Deixou amigos sobretudo nos departamentos de História da Universidade Federal Fluminense (UFF), onde cursou mestrado nos anos 1980, e da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Publicou trabalhos em português e em inglês, entre os quais se destaca Um contraponto baiano: açúcar, fumo, mandioca e escravidão no Recôncavo, 1780-1860 (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003). Em português, veiculou seus artigos particularmente na revista Afro-Ásia.

De sua pesquisa sobre a praia do Rio de Janeiro, o trabalho publicado mais recentemente, que eu saiba, é o excelente “Medindo maiôs e correndo atrás de homens sem camisa: a polícia e as praias cariocas, 1920-1950“, que saiu na edição de junho de 2016 de Recorde: Revista de História do Esporte. Sobre a mesma pesquisa, em português, há outro excepcional artigo a respeito da cor da pele e do bronzeamento entre os anos 1920 e 1950. Espero que o livro venha a ser publicado um dia. Será uma contribuição imensa aos estudos históricos do lazer e da cidade do Rio de Janeiro.

Além de um pesquisador de mão cheia e um intelectual notável, Bert mostrou-se, a cada vinda ao Rio (e nos contatos por email) um colaborador generoso, sempre disposto a trocar ideias e indicar fontes, assim como a fazer perguntas, trazer dúvidas, pedir contatos de amigos. A intensa curiosidade e a busca do conhecimento o faziam avançar; a cautela e o compromisso com a cientificidade o faziam parar e contemplar, desconfiar, ponderar, problematizar. As conversas com cariocas às vezes eram demandadas por dúvidas sobre uma palavra, uma referência, um vídeo. Sua pesquisa sobre os usos da praia na cidade era complexa e difícil, sobretudo à medida que se aproximava do tempo presente, com os diferentes contextos, a dispersão e quantidade de fontes, a intensa midiatização das representações da praia e de seus frequentadores.

Perdemos um pesquisador sério, talentoso, progressista, generoso e que tinha um amor imenso pelo Brasil – amor que estimulou em muitos de seus alunos e orientandos, usando os mais variados métodos, incluindo apresentações de fim de curso heterodoxas com música, vestimentas e arte brasileiras no meio de bares de Tucson, Arizona.

Bert era um tremendo sangue-bom.

 

 

Rafael Fortes
Professor do Departamento de Ciências Sociais
Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio)

Um filme

11/11/2016

 

 

Vale a pena ver este excelente e belo documentário: Lute como uma menina! Dirigido por Flávio Colombini e Beatriz Alonso, trata das ocupações de escolas públicas iniciadas em novembro de 2015, em São Paulo. O movimento luta(va) contra o fechamento de escolas públicas imposto pelo governo Geraldo Alckmin (PSDB).

Com boa parte da esquerda e do mundo sindical – incluindo o movimento docente dos professores universitários – enfrentando imensas dificuldades para unificar as lutas e atrair as pessoas para delas participar, a esperança vem dos estudantes. Mais ainda, das estudantes. Quem dá aula – de luta pela educação pública, pelo presente e pelo futuro – são elas.

O Brasil será melhor se escutar o que estas (e outras) garotas dizem.

(via Viomundo)

Rapidinhas acadêmicas

5/10/2016

No blogue História(s) do Sport, esta semana temos uma reflexão de Cleber Dias a respeito do mecanismo duplo cego como sistema de avaliação por pares em revistas científicas brasileiras. Como afirma o título, trata-se de uma incursão “nos calabouços da ciência“.

*  *  *

O discurso do governo Temer era de que o orçamento da Educação para 2017 seria menor (o que, em si, já é uma decisão política tenebrosa), mas não sofreria cortes ou contingenciamento. Mal começamos outubro de 2016, e o discurso já mudou: o Ministério da Educação agora avisa que vai, sim, haver cortes.

Rapidinhas

11/8/2016

Universidades federais devem ter corte de até 45% nos investimentos“, diz uma matéria do Estadão. (via Jornal da Ciência)

Ao contrário da entrevista comportada que comentei ontem, desta vez a nova presidente da Andifes criticou as medidas. Interessante mudança de tom.

Embora publicada por um jornal neoliberal, a matéria dá um panorama razoavelmente correto da situação das universidades federais. Elas passam pelo mesmo processo de outras instituições e serviços públicos: à medida que aumenta a abrangência e quantidade do público atendido, a qualidade cai. No Brasil, não temos histórico de serviços públicos simultaneamente de qualidade e universais – ou seja, Estado de Bem-Estar Social. Ou têm qualidade e atendem poucos, ou atendem muitos sem qualidade – exceções são, nas últimas décadas, a vacinação infantil, o voto e o alistamento militar. O passo seguinte, que (ainda) não aconteceu com as universidades, é o abandono por parte da classe média (como foi o caso do transporte público, da saúde pública e da educação pública nos níveis fundamentais e médio), o que, por sua vez, é lido pelos governantes como sinal verde para rebaixar a qualidade.

Tais problemas ganharam grande visibilidade durante a greve de 2012, quando o Partido dos Trabalhadores (PT) tinha amplas responsabilidades sobre a situação, com Dilma Rousseff na Presidência e Aloizio Mercadante no Ministério da Educação. A greve durou meses e o governo nada fez para resolver os problemas. Muito pelo contrário: nos anos seguintes, o MEC sempre foi o ministério com mais cortes no orçamento, e parcelas crescentes de dinheiro público foram destinadas a corporações multinacionais operando livremente no mercado brasileiro de ensino superior.

Para tragédia da população e do país, o governo interino e ilegítimo do Mordomo de Filme de Terror aprofunda as políticas levadas a cabo pela Coração Valente.

Ainda sobre a Pátria Educadora (4)

2/6/2016

Dando sequência às políticas que produziram um imenso laissez-faire para o ensino superior privado durante o governo FHC (PSDB) e foram aprofundadas durante os mandatos de Dilma e Lula (nestes, do PT, com ampliação do uso de recursos do Estado para financiar toda sorte de bandalheiras por parte de instituições e empresas privadas no mercado da educação superior), agora uma notícia diz que talvez a Estácio seja comprada pela Kroton. Além de uma péssima notícia para a educação no Brasil, surge a oportunidade de batizar o novo monstro com um nome apropriado: Eskroton.

[Adendo em 4/6: Também poderia se chamar Eskrotácio.]

Ainda sobre a Pátria Educadora (3)

10/5/2016

Pingou na caixa postal esta excelente entrevista de Suzana Herculano-Houzel, professora e pesquisadora da UFRJ, que está pedindo o boné do país e vai para os EUA. Triste… Quatro comentários:

1) A meu ver, o regime de dedicação exclusiva, reivindicado pelos dois sindicatos que representam os professores das instituições federais de ensino superior (IFES), é um dos maiores problemas da carreira que temos. Num mercado de trabalho em que até os jogadores de futebol conseguiram se livrar do passe, os professores da rede federal devem ser a única categoria que reivindica grilhão para si. Enquanto isso, um ministro do STF é dono de uma empresa de ensino (e contrata colegas de tribunal para darem aulas), assim como procuradores do Ministério Público Federal podem dar aulas em regime de 20 horas em universidades. O regime de dedicação exclusiva significa a proibição de os professores federais, que têm um dos piores salários do Executivo, trabalharem no tempo livre/extra – algo que inexiste para a ampla maioria das carreiras do serviço público federal. Por preços módicos, no regime de dedicação exclusiva cada universidade torna-se dona de todo o tempo semanal do professor: as 40-44 limitadas pela CLT e as demais.

2) A meu ver, deveria haver a possibilidade de separação entre as carreiras (ou atividades) de professor e pesquisador. Isto permitiria uma política adequada de recursos humanos (muito diferente da que está em vigor), que aproveitasse as capacidades, potenciais e desejos de cada trabalhador. Contudo, estamos caminhando justamente na direção contrária: agora, alguns iluminados – na Unirio, por exemplo – decidiram que cabe a cada professor executar, a cada ano, ensino, pesquisa, extensão e gestão.

Ora, fazer ensino, pesquisa e extensão é dever da universidade, e não de cada docente. Comparando com um hospital (tenho dúvidas se é a melhor comparação, mas é a que me ocorre): alguém consideraria razoável que o mesmo médico atenda na emergência, opere no centro cirúrgico, realize exames e negocie contratos e preços com fornecedores? Pois é isso que se quer que todo professor universitário faça.

3) Por uma série de motivos, trabalhar no exterior é menos complicado para pesquisadores de Ciências da Natureza, Exatas, da Saúde etc. Para os professores de Ciências Humanas, Sociais e Sociais Aplicadas (refiro-me a áreas como Direito, História, Letras, Psicologia, Sociologia etc.) há muito mais dificuldades e menores possibilidades.

4) A infraestrutura das universidades federais, na média anda ruim. Mas é pavorosa no caso daquelas localizadas no Rio de Janeiro, principalmente Unirio e UFRJ.

*  *  *

Enquanto isso, mesmo um jornalista que tem feito excelentes análises continua apostando no que chamo de “acorda, Dilma”, como se o problema do Brasil fosse uma Bela Adormecida no Palácio do Planalto. A espera e a esperança de que Dilma quebrará o feitiço que lhe jogaram, se juntará com as forças de esquerda que a reelegeram e defendem seu governo e dará uma “guinada à esquerda” segue firme e forte entre certos setores. Noutro texto, um exercício de wishful thinking de Nassif lista de ações de um “gabinete fantasma” da Coração Valente deposta, como esta: “O Ministério de Ciência e Tecnologia aprofundaria as políticas já em vigor, como a Embrapii e demais ideias em gestação e denunciaria o desmonte que viesse a ser perpetrado.

Ora, primeiro, tenho dúvida se “gabinete fantasma” ficaria melhor para definir a escalação de ministros que a Coração Valente colocou em campo após a vitória nas eleições de 2014 ou um gabinete que ela possa apontar após ser afastada. Segundo, no que diz respeito ao MCTI, cabe perguntar: a qual desmonte e a quais políticas em vigor se refere? À redução de verbas dos anos de Governo Dilma (trata-se de uma política em vigor)? (ver nota abaixo) Ou ao rodo que passará um possível Governo Temer?

O exercício de futurologia inclui belos projetos para as universidades federais, um universo bem distante do Governo Dilma real, sob a batuta do ministro Aloizio Mercadante (PT).

*  *  *

Por falar no ministro, o colunista Elio Gaspari escreveu uma boa coluna espinafrando a proposta do prócer do governo Dilma para ampliar o teto de renda familiar para acesso ao Programas de Financiamento Estudantil (FIES). Segundo Gaspari, que apresenta argumentos para sustentar as adjetivações, “é uma proposta desonesta, baseada em argumentos falsos, destinada a beneficiar empresários afortunados“. Três comentários:

1) O texto foi escrito como se não houvesse universidades federais no Brasil. E como se os caminhões de dinheiro que os governos Lula e Dilma decidiram destinar às instituições privadas não fizessem falta nas estatais. Como comentei antes, segundo um dos líderes do insuspeito Proifes (o sindicato governista dos professores de instituições federais), a conta era de que, em 2015, o volume de dinheiro chegasse a “60% do montante destinado a todas as universidades e institutos federais“.

2) O adjetivo “afortunados” para classificar os empresários do ensino superior é irônico, mas também bondoso com os anunciantes dos jornais para os quais Gaspari escreve. Tempos atrás, durante uma Comissão Parlamentar de Inquérito para investigar as instituições de ensino superior privado na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro, a deputada Jandira Feghali (PCdoB) afirmou, mais de uma vez, que a quantidade e variedade de crimes cometidos por diversas empresas constituíam “um amplo passeio pelo Código Penal”. Legislações trabalhista e tributária, entre outras, também são descumpridas de forma sistemática. Dica: entre no arquivo do relatório (em pdf) da CPI e jogue na busca (control + F) a palavra “crime”. A palavra pilantragem não aparece uma vez sequer, mas resume o espírito da atuação de muitas empresas.

3) A medida, como trocentas outras, evidencia uma das prioridades da Pátria Educadora: usar dinheiro público da educação para aumentar o faturamento de empresários milionários e de acionistas da Bolsa de Valores. O crescimento do setor privado em Saúde e Educação e o faroeste cada vez mais amplo em que as empresas fazem a farra é, a meu ver, um dos piores aspectos dos governos do PT no Planalto. A deterioração contou com importante contribuição da medíocre atuação da maioria das entidades sindicais (e estudantis), cujo apoio incondicional ao governo levou-as a não combater como deveriam o avanço de políticas neoliberais e lesivas ao interesse público (e aos cofres do Estado). Pelo andar da carruagem até o momento, o avanço das privatizações em ambos os setores será um dos legados nefastos dos governos Lula e Dilma.

*  *  *

Enquanto abunda dinheiro para pagar mensalidades em universidades privadas de má qualidade (em sua maioria), as universidades públicas seguem à míngua – a falta de dinheiro, de investimento e de recursos humanos faz com que também tenham cursos de péssima qualidade. (Esse é, de longe,  o principal problema, mas existem outros: incompetência de parte dos administradores e trabalhadores, ou as poucas horas de trabalho semanal de parte dos quadros, salários e condições de trabalho pouco atrativas para servidores competentes e interessados em trabalhar etc.)

A ser verdade esta notícia, em 2015 o CNPq disponibilizou o menor montante de verbas para pesquisa desde 2001 (via Jornal da Ciência). Sim, em ao menos dois anos do Governo Fernando Henrique Cardoso o CNPq investiu mais que o do Governo Dilma Rousseff.

*  *  *

Seria muito ruim um fundamentalista de qualquer religião em qualquer ministério. Nos ministérios mais diretamente ligados à ciência – MCTI e MEC -, pior ainda (isto se existir um MCTI, claro). Agora, se for um bispo competente, periga ser melhor do que Aloizio Mercadante. Pronto, falei.

Ainda sobre a Pátria Educadora (2)

15/4/2016

Uma ótima crítica da falta de políticas públicas para tecnologia nas universidades: “Universidade sem tecnologia?“, de Rafael Evangelista, professor da Unicamp. (via Luis Nassif Online)

É bom lembrar: a falta de política pública para uma determinada questão é uma política pública.

A Unirio é um exemplo: as dificuldades de prover um serviço email que funcionasse foram “resolvidas” há dois ou três anos jogando para dentro do Google os endereços @unirio.br. Não fiquei sabendo de qualquer crítica ou ponderação a respeito, o que diz muito sobre a desatenção e desconhecimento em relação ao assunto por boa parte dos professores.

Mas, considerando que, em 2016, boa parte das universidades (incluindo a Unirio):

a) desconsidera a leitura e escrita de emails entre as atividades que ocupam horas de trabalho dos docentes;

b) continua selecionando professores por intermédio de uma etapa (entre outras) em que os conhecimentos são aferidos através de uma prova feita a caneta em folhas de papel almaço, ignorando a existência de computadores e a probabilidade de que tais exames (e os idênticos métodos de seleção de mestrado e, às vezes, doutorado) são a única ocasião em que as pessoas escrevem textos longos sem usar computador. Na verdade, tal método de avaliação é anterior à máquina de escrever.

Considerando estes dois itens, e o que é apontado no texto, é compreensível – e também triste e injustificável – que as universidades rifem a capacidade de desenvolver certas tecnologias. Na verdade, em instituições como a Unirio, é possível afirmar que se desistiu não apenas de desenvolver, mas de usar certas tecnologias: o prédio em que trabalho não tem laboratório de informática. Há seis anos e meio na instituição, ainda não fui agraciado sequer com uma mesa – algo mais simples que computador, software ou sistema de informação – para poder trabalhar. Eu e dezenas de professores que conheço.

É sempre bom lembrar que, de acordo com muita gente por aí (e de muita gente nas universidades federais), temos um governo de esquerda (ou de centro-esquerda) no país há 13 anos. E, desde o início do ano passado, estamos na Pátria Educadora.

Ainda sobre a Pátria Educadora

8/4/2016

Além de, por questão de princípio, defender a democracia e o respeito à principal e definitiva instância de aferição da vontade do povo (o resultado das eleições), venho também destacando as medidas neoliberais do Governo Dilma Rousseff (Partido dos Trabalhadores), que prejudicam o país e, em particular, justo aqueles setores da população que têm se manifestado em defesa do regime democrático – e, com frequência, também em defesa do governo.

Eu mencionava outro dia que “a desnacionalização do ensino superior privado” é uma das “iniciativas neoliberais dos governos federais do PT“. Ou seja, os governos federais do PT tomaram duas decisões políticas: a) fingir que não viram a desnacionalização; e b) desperdiçar muito dinheiro do orçamento da Educação destinando-o às empresas e instituições privadas. Ao fazê-lo, transferem para o exterior preciosos recursos extraídos da sociedade brasileira. Sabe As veias abertas da América Latina, de Eduardo Galeano? Pois, é.

Esta forma de transferência de dinheiro público para o exterior, via educação, condiz com o governo neoliberal de Fernando Henrique Cardoso (Partido da Social Democracia Brasileira) e com a gestão de Paulo Renato Souza no Ministério da Educação. Contudo, ela é criação e responsabilidade dos governos do PT. Entidades da área de educação, incluindo federações e sindicatos que se apelegaram desde 2003, como a Central Única dos Trabalhadores (CUT), a Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE) e o Proifes, nada ou quase nada dizem sobre o assunto. Seguem apoiando o governo de forma quase automática. Seus dirigentes serão julgados pela história – talvez, antes, perdendo os empregos e vendo se deteriorarem suas condições de vida, como há anos ocorre com milhares de professores do ensino superior privado.

*  *  *

Com os cortes no Orçamento que comentei outro dia, segundo o Jornal da Ciência, “a pasta da CT&I [Ciência, Tecnologia e Inovação] registra pior orçamento dos últimos dez anos“. Pelo que entendi, a matéria compara os valores nominais. Se forem comparados os valores reais (corrigidos pela inflação), pode piorar.

Soma-se a isso o bloqueio (ou corte) de bolsas recentemente promovido pela Capes. A Associação Nacional de Pós-Graduandos, em geral bastante apoiadora dos governos federais do PT, criticou.

*  *  *

Enquanto setores da sociedade brasileira lutam de todas as formas para garantir a manutenção das regras do jogo democrático e, em muitos casos, também apoiar o Governo Dilma Rousseff, este enviou ao Congresso, no fim de março, o Projeto de Lei Complementar 257/2016. O projeto é tão radical no que propõe em termos de cortes, retirada de direitos dos servidores públicos e precarização de nossas condições de trabalho – além de mudanças para pior na política de valoziração do (ainda muito insuficiente) salário mínimo -, que gerou este posicionamento do Progoverno, digo, Proifes, o sindicato dos professores federais que apoia o governo:

O PROIFES-Federação repudia totalmente este raciocínio e acredita que o projeto de lei, pelo modo como onera o funcionalismo público, não apenas será ineficaz em seus objetivos, mas terá efeito francamente contrário ao pretendido; uma vez que, ao diminuir seu quadro estável de profissionais ficará impossibilitado de oferecer à população, mesmo em parte, os direitos que lhe são garantidos na constituição e cujo provimento é exatamente o objetivo da gestão pública. De modo perverso, ao tentar resolver o problema fiscal e instituir uma política emergencial de controle de gastos, o PLP incapacita este mesmo Estado a operar como deveria, garantido direitos constitucionais da população.

O projeto versa principalmente sobre a renegociação das dívidas de estados e municípios e embute pacotes de maldades como os citados. Para piorar, “tramita em regime de urgência no Congresso Nacional“. Ou seja, um Congresso conservador recebe um pacote de medidas neoliberais do governo. À parte a briga política em torno do impeachment e assuntos afins, na política econômica está tudo dominado. Parece haver um amplo consenso entre Executivo e Legislativo, que periga aprovar aquilo que o Proifes classifica como um “pacote anti[s]serviço público“. Repito: o pacote é do governo do Partido dos Trabalhadores, governo que conta com amplo apoio de entidades representativas dos trabalhadores como CUT, CNTE e Proifes.

Como era de se esperar, o Andes, sindicato que faz oposição de esquerda ao governo (o que inclui uma alergia à assinatura de acordos), classificou o projeto corretamente como “parte do pacote de ajuste fiscal iniciado pelo governo, no final de 2014. As medidas, que buscam manter o pagamento de juros e amortizações da dívida ao sistema financeiro e aumentar a arrecadação da União, atingem diretamente o serviço público e programas sociais“. E pegou mais pesado nas críticas – a meu ver, repleto de razão.

O projeto é tão neoliberal que gera críticas do Andes e do Proifes e aproxima as posições de ambos. Como, aliás, ocorreu durante a greve do ano passado.

*  *  *

A ser verdade esta notícia, quem frequenta as delegacias fluminenses vai precisar fazer como na paródia da música natalina, que sugeria limpar com jornal. Singela comparação: em seis anos como professor da Unirio, conto nos dedos de uma mão (suja) as ocasiões em que havia sabão nos banheiros do prédio em que trabalho. Papel toalha para enxugar as mãos é tão raro quanto. Papel higiênico, ao menos, tem.

O “compromisso” do PSDB com a educação (7)

22/12/2014

Reportagem do insuspeito – para este assunto – O Estado de São Paulo informa que São Paulo tem um número bastante alto de professores temporários na rede estadual, bem como altos índices de evasão de docentes. Trata-se de uma das consequências de uma política de longo prazo, tendo em vista a sequência de governos do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) no Executivo paulista. Justamente por isso, o problema está longe de ser novidade. (Via Jornal da Ciência)


%d blogueiros gostam disto: