Archive for the ‘Segurança Pública’ Category

Um livro

2/1/2018

BENJAMIN, Cid. Hélio Luz: um xerife de esquerda. Rio de Janeiro: Contraponto, Relume-Dumará, 1998.

Dois trechos, ambos relacionados a problemas que pouco mudaram em quase 20 anos. E que o jornalismo de ficção das corporações de mídia segue fingindo que não existem – assim como os apavorados, mal-intencionados, ignorantes e/ou imbecis que discutem o tema a partir das manchetes de jornal (inclusive porque acreditam em tais manchetes). Os grifos são meus.

“Segundo Hélio, num país das dimensões do Brasil é dificílimo evitar o contrabando através da fronteira. Para ele, a solução está em que os países fabricantes de armas, todos do Primeiro Mundo, cooperem, tendo mais rigor nas suas vendas.

Mesmo os Estados Unidos, que têm muito mais recursos do que nós, quando quiseram combater as drogas em seu território viram que a solução era reprimir a produção delas nos países de origem. Pode ser feito o mesmo com as armas, basta os países fabricantes cooperarem. Veja só, a Líbia não consegue comprar armas. Se o Kadhafi (governante da Líbia) não consegue comprar, por que os traficantes do Rio conseguem? Acaba, então, acontecendo o seguinte: a concentração de renda e o desemprego repõem os bandidos que a polícia prende, e o comércio internacional repõe as armas que ela apreende – afirma Hélio.”

“Houve situações em que a polícia local foi avisada previamente, mas isso era mais exceção do que regra. (…)

Mas pelo menos num caso ficou patente o conluio entre policiais de outros estados e bandidos do Rio. Numa situação inusitada, o tráfico em toda a populosa região de São Gonçalo, no Grande Rio, era controlado por uma senhora de idade, Maria Helena Gomes Jardim, conhecida por Vovó do Pó. Ela, que tinha os dois filhos como seus braços-direitos, foi localizada e presa por policiais do Rio em dezembro de 1996, juntamente com um dos filhos, Luís Carlos Gomes Jardim, o Luís Queimado, em Ponta Porã, no Mato Grosso do Sul, perto da fronteira com o Paraguai. A equipe que os trazia de volta ao Rio atravessou o Mato Grosso do Sul e quando já estava perto de São Paulo foi cercada pela polícia local, juntamente com policiais federais.

– Prenderam o nosso pessoal como sequestradores. E a sequestrada era a Vovó do Pó! – conta Hélio.

Hélio foi informado da prisão por telefone, entrou em contato com o chefe da Polícia Civil de Mato Grosso do Sul e passou por fax as ordens de prisão contra a Vovó do Pó e seu filho. Mas, mesmo com a interferência do secretário de Segurança e do chefe de polícia local, a delegacia continuava cercada e os policiais exigiam que fosse solta a “sequestrada”.

– Quando a coisa parecia ter acalmado, os policiais disseram: “Nós vamos fazer a escolta de vocês”. Porra, nosso pessoal estava com armamento leve e eles tinham armamento pesado. Ficou claro que podiam forjar uma tentativa de resgate, matar todo mundo e soltar a Vovó do Pó. Fui avisado pelo telefone e disse: “Ninguém volta de carro. Vão direto pro aeroporto e peguem o primeiro táxi aéreo pra cá”. Se não, não tem conversa. Polícia vem e mata polícia. Aliás, geralmente quem mata polícia é a própria polícia – afirma Hélio.”

Anúncios

Um vídeo

1/11/2017

Pingou na caixa postal a excelente videorreportagem Bala Perdida, da Agência Pública. Um dos muitos méritos é problematizar a própria expressão “bala perdida”, que sugere um caráter aleatório a algo que, no fim das contas, não é.

O recado de Ibis Pereira, ex-comandante geral da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro, é claro e direto, ao dizer que o remédio é “mais direitos humanos para todos”. Ainda segundo ele, o problema é que a sociedade está recusando o remédio.

 

 

 

 

Carnê de IPTU 2007: Jogos Pan-Americanos, Cidade Olímpica e o Rio do PMDB

20/8/2017

 

Contracapa do carnê de Imposto Predial e Territorial Urbano de 2007, emitido e cobrado pela Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro.

A peça de ficção acima, fruto de imensa criatividade, é a contracapa do carnê de IPTU de 2007 da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro. Em dia de arrumação e de procurar papelada, achei essa maravilha, retrato de um momento. Fica aqui a imagem, quiçá uma fonte histórica para pesquisadores no futuro.

O prefeito à época era Cesar Maia (PFL). Foi sucedido no cargo por uma de suas crias políticas. Naquele fim de século, as Organizações Globo foram ativas formuladoras e apoiadoras de políticas públicas executadas pelos governos Eduardo Paes (PMDB, Prefeitura da capital) e Sérgio Cabral Filho (PMDB, governo estadual); e também beneficiárias de polpudos recursos estatais, sobretudo na área de cultura. Em fevereiro de 2014, escrevi o seguinte:

“Hoje fui ver uma exposição – interessante, diga-se de passagem, sobre surfe e skate – no Museu de Arte do Rio. A instituição foi concebida e executada pela Fundação Roberto Marinho e pela Prefeitura do Rio. Tem patrocínio das Organizações Globo. O dinheiro que sai por uma mão rapidamente é apanhado pela outra. Público e privado entram na batedeira e rodam de uma mão para outra, em loop, tal como limões alçados por um menino num sinal.”

(Alô, ministérios públicos… Alô, Lava-Jato! As corporações de mídia brasileiras são as únicas empresas nacionais, junto com os bancos, cujos donos bilionários não são picaretas, não corrompe(ra)m ninguém, não mantém relações espúrias e suspeitas com o Executivo, o Legislativo e o Judiciário? Conta outra! Vamos investigar!)

Agora que a cidade é governada por um representante da principal emissora de TV concorrente (Record), foi permitido aos trabalhadores dos veículos das Organizações Globo voltar a fazer um pouco de jornalismo, em lugar do noticiário predominante durante os mandatos anteriores, chapa-branca e baba-ovo de figuras que agora estão presas ou às portas de, como o ex-xerife do choque de ordem (em artigo científico publicado em 2010, analisando as capas de O Globo durante os cem primeiros dias do governo Eduardo Paes, eu e um colega afirmamos: “Do ponto de vista da construção da notícia, os textos apresentam reiteradamente o prefeito e o secretário de Ordem Pública como enunciadores dos conteúdos correspondentes às chamadas. Às vezes isso ocorre em dias seguidos, como no início de janeiro, quando o espaço à esquerda da capa constituiu uma espécie de cantinho do secretário.“) e o bilionário que ganhou o Maracanã, a Marina da Glória, o Porto do Açu e vários outros mimos.

Como agora estão na oposição ao bispo prefeito, tais corporações de mídia afirmam que o atual vice-prefeito não paga IPTU desde 2001. O ex-ministro da Coração Valente, quando senador, foi autor de iniciativas legislativas para aumentar a farra de isenções das igrejas. Por exemplo, isentar de pagamento de IPTU a igreja que for inquilina. Com a proposta, as prefeituras deixam de arrecadar recursos que poderiam financiar a contratação de funcionários públicos para garantir direitos da população, ou salários menos indecentes para alguns deles (como os professores), e sobra mais dindim após passar as sacolinhas (bênção, Chico Anysio!).

O goveno estadual do Rio faliu antes mesmo do início dos Jogos Olímpicos de 2016. A Prefeitura do Rio está às portas da falência – já anda atrasando salários da área da saúde, fazendo não se sabe o que com recursos carimbados que vêm direto do Ministério da Saúde. (A gestão de amplas fatias do orçamento da saúde foi doada a organizações sociais que fazem a farra com os recursos, sem qualquer controle da Prefeitura, polícia, MP, tribunais de contas etc. A isso se chama “modernização administrativa e gestão”, modelo colocado em prática pelo PSDB, pelo qual já passaram Cabralzinho e Duda. Em se tratando dos partidos da ordem, está tudo junto e misturado. Não custa lembrar que, na gestão de Paes finda em 2016, o vice-prefeito era do Partido dos Trabalhadores; na campanha de 2008, a CUT-RJ apoiou-o; a então presidente da entidade afirmou que o projeto “do Eduardo Paes representa a possibilidade de avanços para a classe trabalhadora“. Com lideranças com tal capacidade de avaliação política, não surpreende que a classe trabalhadora esteja levando ferro em cima de ferro.)

O ginásio do Maracanãzinho e parque aquático Júlio Delamare permanecem fechados. O estádio de atletismo foi destruído. Mesmo o saqueado e esculachado Maracanã recebe poucos eventos por mês. Ao lado, a UERJ está à beira de fechar. Nas proximidades, o tiro come solto quase todo dia no Morro dos Macacos, em Vila Isabel, e no São João, no Engenho Novo. O ex-governador, o bilionário e um ex-secretário de obras da Prefeitura estão presos. Colegas de gestão e de partido, contudo, continuam governando o estado e presidindo a Assembleia Legislativa, como se nada tivessem a ver com os esquemas anteriores.

O Estádio Olímpico não se chama mais João Havelange. Para o que foi a gestão de recursos dos Jogos Pan-Americanos, e a imensidão de dinheiro que se gastou para construir um estádio superfaturado que pouco depois fechou porque o teto ameaçava cair, tratava-se de uma justa homenagem a este prócer do esporte brasileiro e grande amigo das Organizações Globo.

A tal “Cidade dos Esportes” estampada no carnê não existe mais. Foi ampliada, gastando-se um mundaréu de dinheiro público e violando-se trocentos direitos humanos e garantias fundamentais (durante parte do governo Eduardo Paes, o secretário de Habitação da Prefeitura que violava o direito à moradia de centenas de famílias era Jorge Bittar, do PT), para se tornar o Parque Olímpico. Este, por sua vez, é composto por dezenas de equipamentos fechados e/ou abandonados, que para nada servem, mas custaram e custam um dinheirão. Parque Olímpico, Cidade dos Esportes: nomes-fantasia de um projeto de rifar a cidade, bem como os recursos, imóveis, terrenos, instituições e setores do serviço público para especuladores, bilionários e/ou bandidos, brasileiros e estrangeiros. O COI levou embora centenas de milhões de reais de lucro da Olimpíada, enquanto o Comitê Organizador segue firme sua política de calote olímpico. Ministério Público, polícia e Poder Judiciário fazem cara de paisagem. Em 6/8, o jornalista Elio Gaspari escreveu o seguinte na ditabranda Folha de S. Paulo:

“O ex-prefeito do Rio Eduardo Paes precisa de um banho de folhas de arruda. Na quinta-feira deu aos cariocas um longo artigo falando bem de Eduardo Paes e comemorando sua Olimpíada.

O sujeito lia o texto do doutor, aprendia que sua gestão foi exemplar e estão aí obras como a linha da Transcarioca. O infeliz ligava a televisão e via a Polícia Federal levando para a cadeia Alexandre Pinto, secretário de Obras de Paes, acusado de morder as empreiteiras que fizeram a obra da Transcarioca.”

“XV Jogos Pan-Americanos: Ganha a Cidade, ganha o turismo, ganha você”: mais uma ficção numa era repleta de inveções e mentiras amplificadas pelas Organizações Globo como se fossem uma maravilha. Na cidade olímpica:

  • Onibus é chamado de “metrô de superfície”;
  • Tapumes para esconder as favelas em torno da Linha Vermelha dos que chegam ao aeroporto internacional são denominadas “barreira acústica“;
  • O próprio terminal 1 do Galeão, que ficou anos sendo reformado pelo Governo Federal (alô, Coração Valente!), está fechado. O dinheiro público foi gasto antes de se privatizar o aeroporto, evidentemente. Ajeitou um terminal que hoje não recebe voos ou passageiros;
  • Muros para cercar os pobres é chamado de “ecolimite“;
  • Ações frequentemente ilegais de criminalização da pobreza e de repressão a camelôs e ambulantes são celebradas como “choque de ordem”;
  • A Chacina do Pan foi saudada pela revista Época, também da família Marinho, pela “inovação” no combate ao crime.

A roda continua girando, nos poderes municipal, estadual e federal. Fecho com o mesmo Elio Gaspari, no The Globe de hoje:

“Quem acreditou que o prefeito Marcelo Crivella mudaria os métodos nas negociações com o aparelho da Fetranspor não comprou gato por lebre. Comprou gato por gato.

Um dos conselheiros de Crivella era Rodrigo Bethlem, que havia sido o “xerife” da ordem pública de Eduardo Paes e quindim da máfia das empresas de ônibus.

Paes foi aquele prefeito que pretendeu multar os cariocas que jogassem guimbas de cigarro na rua. Hoje ele vive em Nova York.

Rota 66, 25 anos depois

1/4/2017
Escrevi o texto abaixo ontem (sexta-feira, 31 de março de 2017) para enviar a alguns amigos. Achei melhor publicá-lo por aqui.
*  *  *

Caros(as),

Infelizmente, mais do mesmo.

http://extra.globo.com/casos-de-policia/pms-flagrados-executando-dois-homens-sao-envolvidos-em-37-autos-de-resistencia-21141468.html

Todos mortos em favelas da Zona Norte, todos levados para o hospital (inviabilizando a perícia e fazendo pagar de humanitário quem “socorreu”), todos os mortos estavam com armas que foram apresentadas pelos executores na delegacia, usadas para “trocar tiros com a polícia”. Só não se informa se todos eram jovens e tinham a cor da pele parda ou negra – mas isso é fácil imaginar, não é mesmo? É realmente impressionante como funcionários públicos mal-remunerados, com ou sem salário atrasado, seguem à risca o roteiro-padrão conhecido por todos. Seguiriam até se aposentar, provavelmente. Afinal, matar não é problema, o problema é alguém filmar e cair na internet. Esses talvez sejam afastados e julgados (julgamento justo ou não é difícil saber se haverá, considerando as variáveis “justiça militar” e “condenação/linchamento midiático”, cada uma jogando numa direção), tratados como bode expiatório. Talvez, não.

Todos os outros que fazem isso desde não sei que década, e os que entraram há pouco na corporação e estão começando a aprender o roteiro, continuarão fazendo tranquilamente. Quem se importa?

A matéria trata apenas dos casos que foram registrados em DP e, portanto, entraram nas estatísticas estatais – que servem para pouco mais do que fins estatísticos, ou seja, são praticamente um fim em si mesmas. Raramente servem para investigação e solução pontual (caso a caso), quanto mais para subsidiar a tomada de decisões macro de políticas públicas de segurança. Estas são realizadas com base noutros critérios. Ontem à tarde, por exemplo, um PM reformado foi assassinado numa troca de tiros nas Lojas Americanas da 28 de Setembro, a uma quadra e meia aqui de casa. É impressionante como policiais atraem a proximidade de balas, tiros e criminosos quando estão de folga ou depois que se aposentam. Aparentemente, isto não tem nada a ver com o tipo de trabalho, com as políticas do governo do estado ou com as condições salariais e laborais destes funcionários públicos. Fica parecendo algo cósmico, magnético ou inexplicável: tem sempre um PM de folga nos locais de roubos, e ele sempre decide trocar tiros com os ladrões em vez de continuar seu caminho. O dever sempre chama.

Hoje a 28 de Setembro está cheia de policiais, do início ao fim. A UERJ e a área do Maracanã continuam abandonadas; o desemprego grassa graças à política econômica suicida que temos desde o fim de 2014; é fim de mês e mesmo quem tem trabalho tá duro; a demanda por drogas nas bocas da vizinhança deve estar igual ou maior do que nunca. Provavelmente os PMs de farda aqui na esquina de casa estão com os salários atrasados e vão trabalhar (mesmo que a lei proíba) também nas 72 horas de folga: na segurança, no bico, no táxi, ou _________ (complete como quiser). Quem se importa?

Abraços,

Rafael

P.S.: Quem assina a matéria do Extra é um homônimo, mas não o conheço.

P.S.2: Para quem não conhece, o livro do jornalista Caco Barcellos é uma obra-prima. Infelizmente, o modus operandi que narra continua em vigor nas quebradas do Rio, de Sampa e doutros lugares do nosso país.

Jornalismo e livre associação. Livre?

7/11/2014

No fim da manhã de 5/11/2014, uma chamada do Globo Online dizia: “Jogador Adriano é denuncido por tráfico de drogas pelo MP” (ver imagem capturada da tela abaixo).

Adriano

Não me interessa o mérito da denúncia – que, segundo se noticiou nos dias subsequentes, a Justiça já mandou arquivar -, mas sim a forma como a notícia foi apresentada.

Em primeiro lugar, pela imensa quantidade de preconceitos e ódio de classe presentes nas falas de muitos jornalistas que cobrem futebol, ao longo dos anos, ao tratarem do comportamento deste e de outros (ex-)jogadores do Flamengo.

Segundo, a escolha da fotografia que ilustra tanto a chamada da página principal quanto a matéria. Pensei logo em uma cobertura lamentável do Jornal do Brasil, finado concorrente do Globo, que acabou rendendo uma série de três textos (I, II e III) aqui no blogue e um artigo publicado na revista E-Compós.

Tanto na página principal quanto na matéria, a legenda da fotografia só aparece quando se passa o mouse por cima da imagem: “Adriano em lançamento de projeto social na favela Vila Cruzeiro”, seguida do nome do autor e da data (22/12/2010). Em tempos de abundância de imagens digitais, o jornal foi buscar uma imagem de quatro anos atrás. Será que, além de Adriano, há algum vínculo entre as pessoas que aparecem nela e o conteúdo da matéria? Se há, o texto e/ou a legenda deveriam informar. Em outras palavras: além do jogador, algum dos identificados no texto aparece na foto?

Posso estar enganado, mas, tendo a responder “não”. Acredito que a escolha desta foto tenha mais a ver com os preconceitos que abundam na prática profissional das principais redações, e menos com o caráter efetivamente jornalístico dela – a pertinência de seu conteúdo em relação ao do texto.

O que temos, então? Segundo a legenda, um lançamento de projeto social na mesma Vila Cruzeiro à qual a matéria se refere. Como em quase todas as vezes em que noticia que este ou outro atleta esteve em uma favela, o jornalismo das corporações de mídia coloca o tráfico de drogas no meio (ver os links acima). Desta vez, uma imagem de um lançamento de um projeto social – acreditando-se que a legenda está correta – é usada para ilustrar uma acusação de envolvimento com tráfico de drogas.

Volto às perguntas de três parágrafos atrás: será que, além de Adriano, há algum vínculo entre as pessoas que aparecem nela e o conteúdo da matéria? Como eu dizia, tendo a arriscar um “não”, com pouco medo de errar. Daí decorre outra pergunta: então, por que se escolheu essa foto? A resposta cabal, total, só seria possível pela observação das rotinas produtivas, acompanhada de entrevistas com os profissionais (e estagiários… geralmente muitos estagiários) que as realizam.

Adriano está sem camisa, com tatuagens à mostra. A legenda nos informa que está na “favela Vila Cruzeiro”. Todos à sua volta – incluindo o jogador – são negros ou pardos. Estivesse ele cercado de brancos em uma foto de 2010 ou qualquer outro ano, seria ela escolhida para ilustrar a matéria?

Por fim, creio que o caso não é idêntico ao ocorrido com o Jornal do Brasil. Mas, dependendo da resposta às perguntas acima, revela o mesmo ponto de vista e – pior – de lógica profissional. Mostra um olhar extremamente treinado e acostumado a enxergar a realidade a partir de certos parâmetros. As vítimas preferenciais são as mesmas de sempre.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Um livro

31/5/2014

Um trecho desse livraço que é Elite da Tropa 2:

“Só existem tráfico e milícia, fontes dos piores crimes, porque a polícia é conivente, cúmplice, acionista, sócia ou protagonista do empreendimento. Os mafiosos das milícias são policiais ou ex-policiais de ambas as polícias, civil e militar, ou bombeiros. O resto é exceção. Os traficantes, por sua vez, vendem drogas ilícitas principalmente em pontos fixos, chamados bocas de fumo. Se esses pontos são fixos e se os usuários conhecem o mapa da mina, a polícia também conhece. Óbvio. Portanto, se o estabelecimento varejista continua funcionando é porque pagou sua taxa aos cúmplices policiais. Certo? Tudo isso só não é claro para os governantes. As autoridades.”

E para o noticiário veiculado pelas corporações de mídia, acrescento. O tal jornalismo que sustenta a ficção de que há uma “guerra” entre policiais e traficantes.

Três dos quatro autores do livro são policiais.

Rapidinhas

12/2/2014

Perde muito o futebol brasileiro com a aposentadoria de Juninho Pernambucano, profissional exemplar e grande jogador.

*  *  *

Pingou na caixa portal artigo do professor Moisés de Lemos Martins denunciando as políticas de ataque às ciências humanas em Portugal.

*  *  *

Se não fossem os muitos afazeres, teria um tanto a dizer sobre o jornalismo praticado pela mídia corporativa do Rio de Janeiro nos últimos dias. Uma das vítimas da vez do jornalismo realmente existente nos meios de comunicação hegemônicos é o deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL/RJ). Recomendo ouvir o pronunciamento dele. Dura dez minutos:

Já escrevi numerosas vezes neste blogue sobre tais práticas jornalísticas – uma das reflexões inclusive gerou um artigo acadêmico – e costumo abordá-las em sala de aula. Como nada mudou e muda, seguimos com nossas dezenas de casos Escola Base diários, Brasil afora.

Em meio à selva, ainda há quem considere que o tema mais importante a discutir seja a obrigatoriedade de passar quatro anos fazendo curso específico em universidade para depois executar esse tipo de jornalismo. Nenhuma palavra sobre as empresas que colocam trabalhadores em situações de risco, geralmente sem seguro de vida, hora-extra, sem adicional de periculosidade no contracheque.

Sports de prevenção à tortura

18/9/2013

Pingou na caixa postal esta dica: dois vídeos bacanas de promoção de um evento relativo à tortura, realizado semana passada na Universidade Nacional de Córdoba, na Argentina.

Lá, assim como por aqui, a chapa é quente nas periferias. Os abusos de poder, crimes e violações de direitos humanos cometidos sistematicamente pelas polícias têm como alvo preferencial a juventude pobre. Lá, assim como aqui.

 

 

 

Rapidinhas

18/9/2013

Na ditabranda Folha de S. Paulo, ótimo artigo de Marco Aurélio Canônico: Na Flip, como na Copa.

*  *  *

Em entrevista bem-humorada à Caros Amigos de julho, Celso Athayde também fala sério. Por exemplo, sobre as UPPs, assunto presente no texto acima:

O que percebe em relação às Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs)?

Aprendi que não precisamos ter grandes empreendimentos na favela para intervir na vida dela. O que vale não é o tamanho da estrutura, mas como interferimos. Por isso decidi ter muitas ações, em menor escala, mas em muitas favelas. UPP pra gente é um sonho, que não se realizou. Existem no Rio de Janeiro mais de mil favelas e até 2016 vão estar ocupadas 50 delas. Então, não estamos falando de um programa de Estado, mas de um programa de cinturão com raio definido.

O tráfico diminuiu?

Não. Nem um pouco. As favelas que têm UPP todas têm tráfico. Reduziu as mortes? Reduziu. Isso é bom? Óbvio que sim. Acontece que onde tem “boca de fumo” tem traficante e onde tem traficante tem opressão. Também tem a circulação de dinheiro e junto a isso tem a corrupção, mas se tem corrupção, continua tendo todos os tipos de anomalia de antes. Com a diferença de que agora existe uma negociação baseada no “evite as armas e vamos ficar todo mundo em paz”. O resto continua igual. Como o tráfico segue, a favela sabe quem ela deve temer. O “senhor” da favela continua existindo.”

Apesar do oba-oba do governo Sérgio Cabral Filho (PMDB) e do RJTV, entre outros.

*  *  *

Boa entrevista da Agência Pública com a advogada Magnólia Said sobre os impactos da Copa do Mundo de 2014 para as mulheres. (via InformANDES julho de 2013).

Além da boa entrevista, a matéria indica esta beleza de documentário: “O que as mulheres têm a ver com isso?

Ao vê-lo, lembrei, como sempre, dos acadêmicos amestrados que são, por princípio, a favor da realização de todo e qualquer megaevento esportivo no Brasil.

*  *  *

Blogue que pingou na caixa postal, criticando certas pautas das manifestações recentes no Brasil.

Marcha das Vadias no sábado

24/5/2012

Marcha das Vadias 2012. Importante, louvável, necessária. Sábado, 26/5, 13h. No Rio, no Posto 4, em Copacabana. Mas também em várias outras cidades do Brasil, porque os problemas e consequências da intolerância, do patriarcado, do machismo e da misoginia estão em todo lugar. Vale ler os blogues, textos e manifestos de diferentes cidades, incluindo, claro, a espetacular campanha da Marcha das Vadias de Brasília (DF), com dezenas de imagens bem-feitas, criativas e questionadoras, como a abaixo.


%d blogueiros gostam disto: