Posts Tagged ‘Violência’

Rota 66, 25 anos depois

1/4/2017
Escrevi o texto abaixo ontem (sexta-feira, 31 de março de 2017) para enviar a alguns amigos. Achei melhor publicá-lo por aqui.
*  *  *

Caros(as),

Infelizmente, mais do mesmo.

http://extra.globo.com/casos-de-policia/pms-flagrados-executando-dois-homens-sao-envolvidos-em-37-autos-de-resistencia-21141468.html

Todos mortos em favelas da Zona Norte, todos levados para o hospital (inviabilizando a perícia e fazendo pagar de humanitário quem “socorreu”), todos os mortos estavam com armas que foram apresentadas pelos executores na delegacia, usadas para “trocar tiros com a polícia”. Só não se informa se todos eram jovens e tinham a cor da pele parda ou negra – mas isso é fácil imaginar, não é mesmo? É realmente impressionante como funcionários públicos mal-remunerados, com ou sem salário atrasado, seguem à risca o roteiro-padrão conhecido por todos. Seguiriam até se aposentar, provavelmente. Afinal, matar não é problema, o problema é alguém filmar e cair na internet. Esses talvez sejam afastados e julgados (julgamento justo ou não é difícil saber se haverá, considerando as variáveis “justiça militar” e “condenação/linchamento midiático”, cada uma jogando numa direção), tratados como bode expiatório. Talvez, não.

Todos os outros que fazem isso desde não sei que década, e os que entraram há pouco na corporação e estão começando a aprender o roteiro, continuarão fazendo tranquilamente. Quem se importa?

A matéria trata apenas dos casos que foram registrados em DP e, portanto, entraram nas estatísticas estatais – que servem para pouco mais do que fins estatísticos, ou seja, são praticamente um fim em si mesmas. Raramente servem para investigação e solução pontual (caso a caso), quanto mais para subsidiar a tomada de decisões macro de políticas públicas de segurança. Estas são realizadas com base noutros critérios. Ontem à tarde, por exemplo, um PM reformado foi assassinado numa troca de tiros nas Lojas Americanas da 28 de Setembro, a uma quadra e meia aqui de casa. É impressionante como policiais atraem a proximidade de balas, tiros e criminosos quando estão de folga ou depois que se aposentam. Aparentemente, isto não tem nada a ver com o tipo de trabalho, com as políticas do governo do estado ou com as condições salariais e laborais destes funcionários públicos. Fica parecendo algo cósmico, magnético ou inexplicável: tem sempre um PM de folga nos locais de roubos, e ele sempre decide trocar tiros com os ladrões em vez de continuar seu caminho. O dever sempre chama.

Hoje a 28 de Setembro está cheia de policiais, do início ao fim. A UERJ e a área do Maracanã continuam abandonadas; o desemprego grassa graças à política econômica suicida que temos desde o fim de 2014; é fim de mês e mesmo quem tem trabalho tá duro; a demanda por drogas nas bocas da vizinhança deve estar igual ou maior do que nunca. Provavelmente os PMs de farda aqui na esquina de casa estão com os salários atrasados e vão trabalhar (mesmo que a lei proíba) também nas 72 horas de folga: na segurança, no bico, no táxi, ou _________ (complete como quiser). Quem se importa?

Abraços,

Rafael

P.S.: Quem assina a matéria do Extra é um homônimo, mas não o conheço.

P.S.2: Para quem não conhece, o livro do jornalista Caco Barcellos é uma obra-prima. Infelizmente, o modus operandi que narra continua em vigor nas quebradas do Rio, de Sampa e doutros lugares do nosso país.

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Sobre a iniciativa do MPRJ de exigir torcida única nos clássicos do Rio

17/2/2017

“Só podem estar de sacanagem”, pensei, quando ouvi a notícia. Mas, infelizmente, é sério e é verdade. Em seu programa radiofônico de ontem (quinta), Washington Rodrigues sintetizou o que penso a respeito: “Isso é de uma estupidez que não tem tamanho”.

Parece uma daquelas típicas medidas baseadas na noção de que “está demais… alguma coisa precisa ser feita”. Ora, dependendo do que se vá fazer, melhor não fazer nada.

Confesso que estou com preguiça e sem tempo de elencar todos os motivos que sustentam minha opinião. Um deles: provavelmente o MPRJ não sabe, mas a porrada também estanca entre torcidas do mesmo time. Isso acontece há décadas, e já vi in loco ou ouvi histórias nas torcidas dos quatro grandes clubes do Rio. Há coisa de dois meses, o pau cantou na Tijuca depois de um jogo de basquete – entre torcidas do Flamengo. Aí vão fazer o quê? Proibir também a torcida do time da casa? De repente é uma ideia: Flamengo x Vasco no Maracanã, mas só pode comprar ingresso quem for botafoguense. (Deve ter botafoguense desempregado esfregando as mãos, pensando no quanto lucraria como cambista, repassando os ingressos aos flamenguistas e vascaínos.) Ou gringo! Taí, grande ideia! Vamos vender ingressos só para colonizadores: ingleses, italianos, holandeses, esse povo ordeiro e tranquilo que frequenta os estádios da Europa. (Ainda bem que ninguém do MPRJ lê o meu blogue, do contrário, periga a ideia aparecer numa próxima ação proposta pelo órgão.)

Para piorar, leio na notícia que “na ação, o promotor pede, ainda, que os clubes cadastrem e mantenham atualizadas, mensalmente, as informações de suas torcidas organizadas, identificando cada um dos integrantes por nome e CPF“. Ora, o clube não é responsável pelas torcidas organizadas. Isso é a coisa mais óbvia do mundo – quer dizer, estou vendo que, para o MPRJ, não é. Nas situações em que o clube ajuda as torcidas organizadas, ok, responsabilize-se o clube e seus dirigentes. Mas, a priori, clube é uma coisa; torcida é outra. “Uma coisa é uma coisa; outra coisa é outra coisa”, como eu costumava dizer na primeira aula de Metodologia Científica.

Até onde eu sei, o direito de associação ainda é livre no Brasil. As pessoas se juntam para formar uma torcida (que é uma forma de associação). Ora, o que o clube tem a ver com isso? Que poder tem o clube de intervir? O MPRJ quer transferir para os clubes uma parte do monopólio da violência e do controle que pertence ao Estado? Se a polícia civil, que tem a obrigação de manter atualizado um cadastro dos crimes, criminosos, foragidos etc., mal faz isso, como é que os clubes vão identificar os torcedores? Um funcionário do clube vai telefonar todo mês para a sede da torcida organizada para perguntar quem pagou a mensalidade e quem tá no pendura? Mandar a polícia investigar os crimes e produzir provas que ajudem à condenação dos criminosos não rola, né?

O MPRJ, é bom lembrar, pouco ou nada investigou/investiga o governo anterior do Rio de Janeiro, o governo atual, as milícias, o jogo do bicho, as relações entre empreiteiras e obras da Copa e das Olimpíadas, o telhado do Engenhão que ameaçou cair, a péssima qualidade das concessões públicas de transporte municipal e intermunicipal no RJ, os trens do ramal de Saracuruna que quebram todo dia, a catastrófica situação da rede estadual de educação e trocentos outros problemas. Por atos e omissões, ajuda a manter a impunidade do inacreditável número de homicídios cometidos pelas polícias do Rio de Janeiro a cada ano. E por aí vai… Mas agora arrumou uma solução para acabar com a bandalheira nos clássicos de futebol. Genial! (Pelo menos, a iniciativa não pede duas ações do amplo acervo de medidas geniais que já foram tomadas para acabar com o nosso futebol, quer dizer, com a violência das torcidas: pedir interdição do Engenhão e jogo com estádio vazio.)

Ainda segundo a notícia publicada no site do MPRJ, “vale lembrar que uma medida semelhante foi adotada nos clássicos do futebol paulista, resultando na redução em 75% no número de embates entre torcidas rivais.” Anteontem mesmo a porrada comeu em Santos depois de um clássico San-São, nesse novo modelo que se quer adotar aqui. Seria mais fácil pedir a instauração de estado de sítio, toque de recolher, essas coisas, e mandar todo mundo ficar em casa. Assim, talvez, ficássemos em paz. Ou não – que o digam os capixabas…

Córdoba e nós

6/12/2013

A coisa andou muito feia em Córdoba, segunda cidade mais populosa da Argentina e um centro industrial e estudantil importante, no passado e no presente. Ademais, um lugar que conhececi em julho deste ano, e onde tenho amigos.

Comparações, ilações, analogias, metáforas são sempre complicadas. Mas, guardadas as devidas proporções, não é difícil estabelecer paralelos com certos acontecimentos do Grande Rio: os arrastões da década de 90; alguns episódios do inverno deste ano; as queimas de ônibus que antecederam a midiaticamente célebre (e socialmente trágica) tomada do Alemão pelas forças policiais. Ou os Crimes de Maio de 2005 em São Paulo. Ocasiões em que um certo banditismo organizado e espontâneo gera imensa visibilidade midiática e apoio político imediato à repressão em seu sentido mais brutal, instintivo e imediato. Entre as consequências, quando o rodo passa, percebemos padrões a orientá-lo: o racismo, por exemplo. O racismo aflorou em Córdoba, aflorou em São Paulo em maio de 2005, aflorou aqui no Rio nas ocasiões que citei (e aflora todo dia no comportamento da polícia nas favelas, subúrbios e periferias).

Para entender o que aconteceu junto com informações de crítica e contexto, recomendo a leitura deste texto.

Enquanto o que é relatado no artigo acontece, setores como o de saúde (subordinado à província de Córdoba, assim como a polícia) estão há meses reivindicando aumentos salariais. O governo provincial (equivalente ao estadual, no Brasil), chefiado por De La Sota, ignora.

*  *  *

No dia em que escrevo estas linhas, um morreu um ex-terrorista (assim classificado pelo governo que mandava no país onde vivia, que, por isso, o encarcerou por décadas) chamado Nelson Mandela. Esse cara era foda.

Essa violência é tão estranha assim? Revisitando memórias de perrengue em estádios

27/6/2012

“Passar perrengue” é uma expressão corrente no Rio de Janeiro. Significa passar sufoco, passar veneno, passar (por) dificuldade. Talvez fosse mais corrente nos anos 1980 e 1990, quando eu era moleque e, depois adolescente. Guardo desta época vivas memórias de jogos de futebol assistidos nos estádios – quase sempre no Maracanã, próximo a minha residência atual. Às vezes, no Caio Martins, a algumas quadras de onde morei durante a maior parte da vida, em Icaraí (Niterói/RJ).

Uma violência estranha

Deixa eu começar essa história direito. Algumas semanas atrás, terminei a leitura de Entre os vândalos, livro-reportagem do jornalista estadunidense Bill Buford. Com alguns anos de residência na Grã-Bretanha, ele decidiu mergulhar no universo dos torcedores de futebol violentos (hooligans) e escrever um relato. Mas não, não farei uma resenha. Não quero discutir a forma, o conteúdo, a ética jornalística ou demais aspectos desta obra impressionante. Escrevo sobre o que a leitura me levou a pensar.

De cara, digo que o relato me causou impressões vivas – causaria em qualquer um, acho. Três trechos:

a)  “E então Mick arrotou. Foi um arroto espetacular, longo e terrível, uma explosão lenta e brutal de inúmeras efervescências gástricas insalubres. Era um arroto que convidava a uma especulação: quanto às beberagens, às comidas e às possíveis quantidades que haviam contribuído para um borrifo tão potente que parecia elevar-se indefinidamente bem do fundo do torso torturado de Mick.” (p. 33).

b) “Harry não se deu conta de que a festa estava sendo promovida pela polícia (…), mas então era tarde demais. Harry já estava em pleno exercício de sua rotina – a pá, a mobília arremessada contra a janela, as garrafas quebradas, e assim por diante. Na briga que se seguiu, Harry atirou um dos policiais ao chão, ergueu-o pelo peito e então deu-lhe uma cabeçada – causando-lhe uma rachadura na testa, no limite do couro cabeludo. Com o golpe, o policial deve ter perdido a consciência, pois pareceu oferecer pouquíssima resistência ao que Harry fez a seguir: agarrou o policial pelas orelhas, levantou a cabeça até a altura de seu próprio rosto e se pôs a sugar um dos olhos do policial, forçando-o para fora da órbita até senti-lo estalar atrás de seus dentes. Então arrancou-o de vez.” (p. 242)

c) “Eu nunca estivera em uma multidão na qual as pessoas disparassem armas.” (p. 296)

Porém, como eu vinha dizendo, não é das reações ao relato que quero tratar. Falarei daquilo que o livro me vez repensar e relembrar. Sim, porque muita coisa aflorou à memória durante as semanas de leitura. Aliás, fazia tempo que eu não devorava um livro tão rapidamente. Freud explica?

Nas primeiras dezenas de páginas, pensava assim: “estranho”, “bizarro”, “como é que pode?”, “feio”, “o que é isso?”, “diferente de tudo que consigo imaginar”, a ponto de  ser incompreensível. Será?

Revisitando memórias de perrengue em estádios

Com o correr dos dias, comecei a lembrar de episódios que vi ou vivi em idas a partidas de futebol. São histórias que recordo – memória, portanto. Não são exemplos com total fidelidade em relação ao efetivamente ocorrido, mas são o melhor que consigo em termos de exprimir em palavras aquilo que a mente é capaz de lembrar.

1) Na primeira metade dos anos 1990, nos jogos do Flamengo no Caio Martins, eu não só frequentava uma certa torcida organizada, usando camisa e boné dela, como entoava gritos sobre enfiar a porrada nos adversários e, em especial, nos membros de suas respectivas torcidas organizadas. Contudo, nunca fui de briga, muito menos por causa do Flamengo. Correspondia, portanto, ao que o senso comum vulgar (futebolístico ou não) carioca e de outras quebradas classifica como cuzão.

2) Em dezenas de partidas, entoei cânticos machistas, homofóbicos e xenófobos contra jogadores, dirigentes, juízes e, claro, torcedores adversários. Me atrevo a dizer que só não rolou racismo porque estava (e estou) na torcida do Flamengo: no caso do preconceito racial, as vítimas éramos e continuamos sendo nós.

3) Minha estreia em estádios foi aos oito, num Vitória x Flamengo, na Fonte Nova, pelo Brasileiro de 1986. O Flamengo ganhou de 1×0, gol de Bebeto – justo ele, ex-jogador do adversário. Havia muitos flamenguistas no estádio, reforçados pelos adeptos do tricolor baiano. Ao final da partida, confusão pra tudo que é lado. A partir daqui, a memória desvanece. Lembro vagamente de um tiroteio, de meu pai me mandando deitar na arquibancada e se deitando sobre mim, para me proteger. E acho – acho – que um amigo dele (em cujo carro fomos ao jogo), gente boa à beça, sacou o 38 da cintura e deu uns tiros.

4) Por falar neles, houve pelo menos duas ocasiões em que peguei um tiroteiozinho na saída do Maraca. Uma, na Avenida Maracanã. Eu e um amigo corremos para trás de uns carros estacionados próximo a um posto de gasolina e lá ficamos, até a coisa amainar. Outro foi na Rua Barão de Mesquita, perto do Colégio Militar (região tradicional de brigas e confusões). Mesmo procedimento: procurar um carro estacionado por perto e refugiar-se debaixo dele.

5) Certa vez, fui de geral a um Flamengo x Botafogo. Fomos no setor popular – extinto durante o Governo Rosinha Garotinho (então no PMDB) – porque éramos estudantes e, consequentemente, duros. E também porque minha companhia eram dois amigos: um, flamenguista; o outro, botafoguense. A geral nos possibilitava vermos o jogo juntos.

Na saída, a empresa responsável pela linha 703, a única que liga Niterói ao Maracanã, simplesmente retirara de circulação os ônibus. Resultado: uma caminhada do Maracanã até a Leopoldina, onde, pensávamos, conseguiríamos um ônibus para Niterói. Foram cerca de três quilômetros de caminhada por avenidas com raros pedestres, salvo alguns que saíam do jogo. Pouco após passarmos sob a passarela em frente ao início da Rua Senador Furtado, uma gangue pertencente a uma torcida organizada do Flamengo, aparentemente inspirada pelo nome da via, nos assaltou. Eu e o amigo flamenguista perdemos nossas camisas do mais querido e o dinheiro da passagem. Levaram o relógio velho que eu usava. Embora não tenha reagido e tenha obedecido às instruções, ainda apanhei: levei uma voadora no peito. Imagine o que teria ocorrido se meu amigo botafoguense estivesse com uma camisa do alvinegro…

A partir daí, só – novos – problemas: o contato com a polícia (“Quem manda ficar vindo ao Maracanã? Não sabe que aqui é violento?”, me aconselhou o PM), o fato de alguns passantes acharem que eu e meus amigos éramos criminosos (três moleques sem camisa sentados ao lado do carro da polícia), a dificuldade para voltar para casa sem dinheiro.

Conseguimos tomar o rumo de volta após caminharmos até a Praça da Bandeira, onde entramos num ônibus que ia para São Gonçalo. De cara, explicamos ao trocador – e a dois seguranças da empresa, sentados no último banco e aparentemente armados – o que ocorrera e, ainda bem, todos foram solidários. Para completar, ao finalmente ver aberta a porta de casa – horas após deixar o Maraca -, levei um esporro da minha mãe por estar “sem camisa”, ato classificado por ela como “irresponsabilidade”.

6) Teve também uns dois jogos entre Flamengo e Vasco, ali pela primeira metade da década de 1990, com estádio lotado, em que a principal (à época, ao menos) torcida organizada do cruzmaltino simplesmente começava a correr pelo meio do anel da arquibancada em direção da torcida adversária – em nossa direção. Estou falando de um movimento de dezenas de milhares de pessoas correndo e do pânico que se instalava na multidão pelo caminho – que, ato contínuo, começava a correr, em fuga. O horror, o horror. O resultado, à parte os envolvidos nas brigas, eram pessoas perdidas (de familiares e amigos), crianças chorando, gente pisoteada.

7) Lembro de quase ter sido esmagado nas colunas do acesso à rampa do Bellini, junto com meu pai, na confusão da entrada para assistir à vitória do Brasil sobre o Uruguai na última rodada (“final”) da Copa América de 1989. A pressão da multidão, como Buford relata, é algo impressionante e exige o aprendizado de técnicas avançadas de sobrevivência. No meu caso, incluíam uso de braços e cotovelos para não ser esmagado em quem estava à frente e para tentar desviar das colunas.

Polícia para quem precisa

8) Já na década passada (a primeira do século XXI), quando o padrão de civilidade avançara, em meio à confusão para a compra de ingressos para um Flamengo x São Paulo, um policial militar teve a brilhante ideia de aspergir spray de pimenta para ajudar a organizar uma fila. Foi a primeira e desagradável experiência que tive com o maldito spray.

O comportamento costumeiro da polícia nas bilheterias é um capítulo à parte. Não raro, em vez de chegar cedo e ordenar a distribuição das pessoas pelo espaço, garantindo a segurança de todos, aparece quando o pandemônio já está instalado e limita-se a distribuir porrada a torto e a direito, num comportamento completamente fora de lugar num Estado Democrático de Direito.

Teve também a vez em que a polícia montada usou os cavalos para esmagar os torcedores junto ao muro e, desta maneira, organizar a fila para entrada no Maracanãzinho. Mas, vá lá, nesse caso, não foi futebol – era uma final de basquete entre Flamengo e Vasco.

9) Lembro também de um jogo a que fui de geral, ainda adolescente, com um amigo. Otário, perguntei a um policial militar onde ficava a bilheteria que vendia entradas para o setor. Ele respondeu: “compra com ele ali”, apontando um cambista. Tentamos escapar, mas não teve jeito: compramos do cambista. Não satisfeito, o policial nos conduziu até a roleta de entrada:

– Agora vocês dão o ingresso pra ele [o bilheteiro] e passam por baixo.

– Como é?

– É isso que você ouviu, porra. Anda logo.

Fico pensando quantas vezes aquele mesmo ingresso foi reciclado, o quanto de dinheiro não entrou na renda do jogo e quantas pessoas estavam no estádio além do registrado no borderô.

Minha torcida, outras torcidas

10) Há ainda a experiência com torcidas organizadas adversárias. No caso dos times de fora do Rio, sem dúvida, minhas piores foram com as do Palmeiras, especialmente a maior delas. Uma vez, acho que em 1994. Se não me falha, o Flamengo venceu por 2×0, dois gols de Sávio, à época jogando o fino. Fui de geral (talvez tenha sido o mesmo jogo da história anterior). A certa altura, vejo pessoas correndo apavoradas, incluindo um cara com a cabeça sangrando. A tal torcida, da arquibancada, atirava pedras nos geraldinos flamenguistas.

Tem outra. Primeira rodada do Brasileiro de 2007. Eu caminhava sozinho rumo ao Maracanã quando, na altura da UERJ, avistei os ônibus das torcidas organizadas do Palmeiras chegando. Parei atrás de um poste, a cerca de 100 metros de onde os coletivos – acompanhados por escolta da PM fluminense – passariam. Sendo o único flamenguista nas redondezas, fui xingado por todos que acorreram às janelas dos coletivos. Em seguida, um estrondo bizarro: uma bomba explodiu a cerca de 50 metros de mim. Tal qual um jogo de xadrez, fui calculando os movimentos e levei cerca de meia hora para chegar à bilheteria, caminho que normalmente faria em cinco minutos. Durante o trajeto, passei  ao largo dos ônibus, já estacionados, pois todas as janelas estavam fechadas. É que a polícia montada já havia descido a madeira (como diria Bezerra da Silva) e as espadas nos que estavam nas janelas.

11) Teve também um Fluminense 1×0 América, no Caio Martins, cujo segundo tempo assisti na torcida do América. Eu levava, malocada na bermuda, uma bandeira do Fluminense que pertencia a um primo (que deveria ter me encontrado antes do jogo, mas não o fez, dado o pandemônio causado pelo afluxo de público – se não me engano, foram 7 mil pessoas naquela tarde maldita). Fui ameaçado por um integrante de torcida organizada do clube tijucano e escapei porque disse que era flamenguista, fato confirmado pelos amigos de escola que estavam comigo. No fim do jogo, quem apareceu para dar porrada foi uma torcida do tricolor, aproveitando a notória desigualdade numérica. Escapei, mas foi humilhante quase apanhar das duas torcidas presentes no estádio.

12) Houve um Fluminense x Botafogo pela Copa Sulamericana, ao qual fui acompanhando minha namorada na época, alvinegra. Clima horroroso do lado de fora: correria, bombas, pedras voando. Depois soubemos que, naquela tarde, houve troca de tiros – com morte de um torcedor – entre torcidas organizadas dos times próximo à sede de uma delas, no Méier.

13) Na final do estadual de 1995, conhecida como “jogo do gol de barriga”, daco o clima da semana e o fato de os ingressos haverem se esgotado antecipadamente – coisa rara na época -, parte dos problemas era previsível. Ainda residente de Niterói, fui na véspera para a casa do avô de um amigo, na rua Torres Homem, em Vila Isabel. No dia seguinte, almoçamos e caminhamos até o Maraca. Já saímos com os ingressos e o dinheiro dentro do tênis. No empurra-empurra próximo às roletas, meu amigo comenta: “Rafael, ainda bem que você falou pra trazer o ingresso no tênis. Já meteram a mão várias vezes no meu bolso.” Entramos.

O jogo foi emocionante e teve um desfecho trágico para o rubro-negro. Na saída, cenas de horror. Na pior, pai e filho caminhavam lado a lado, de mãos dadas, vestindo camisas do Fluminense. Torcedores do Flamengo obrigaram o pai a tirar a blusa e lhe espancaram na frente do filho. Horrores afins aconteceram nessa noite.

Em escala menor, também os vi após a fatídica final da Copa do Brasil contra o Santo André. Após a partida, sentados no finado Só Kana da Vila, eu e amigos assistimos a cenas feias do outro lado do Boulevard 28 de Setembro. Por exemplo, um cara que falava ao orelhão e apanhou de bobeira de um grupo que passava.

14) Houve uma saída de jogo em que caminhava com amigos pelos lados da Rua Arthur Menezes. Vimos um policial dominar um garoto que, acreditávamos (ou presenciáramos em flagrante, não lembro ao certo), havia roubado alguém. Um amigo solta a pérola:

– Mata logo.

– Não pode atirar! Tá errado.

– Não é pra matar? Não é pra matar um cara desses?

E seguiu-se uma discussão atravessada e um tanto rasa sobre direitos humanos, enquanto passávamos ao largo do policial, que, a essa altura, algemava o (provável) ladrão.

Não conclusão

Bom, o que concluir disso tudo? Não sei. Mas algumas coisas me ocorrem:

a) Não obstante esse cenário bizarro, nunca deixei de ir a jogos. Maluquice? Provavelmente.

b) Nos tempos em que a selva que descrevi era usual, por incrível que possa parecer, comprar ingressos com frequência era mais fácil que hoje em dia.

c) Aliás, parece que estamos passando da selva para a era dos ingressos (e tudo mais) a preços extorsivos sem termos chegado à garantia de direitos e à oferta de serviços decentes ao torcedor (ao menos do torcedor do Flamengo). Federações e confederações, clubes, empresas de comunicação, empresas patrocinadoras e empresas que gerem serviços relativos ao futebol (venda de produtos nos estádios, venda de ingressos etc.) violam sistematicamente o Código de Defesa do Consumidor, o Estatudo do Torcedor e, por que não, o Código Penal.

d) Continuam havendo problemas com as torcidas organizadas, mas eles me parecem significativamente menores que no passado. Para mim, a primeira metade dos anos 1990 é, de longe, o período mais violento. Já há alguns anos, a redução de problemas dentro dos estádios é notável – em parte, devido à lógica de restringir a circulação e separar radicalmente as torcidas.

e) Obviamente a situação no Brasil guarda distinções com a narrada por Buford – que, mesmo na Europa, melhorou desde então. Por exemplo, há uma enorme distância entre a ausência de armas de fogo por lá e a presença banal das mesmas por aqui.

Adendo sobre a tradução

A edição que li saiu em 2010 pela Companhia de Bolso, selo mais barato (na verdade, menos caro) da Companhia das Letras. O original inglês é de 1991 e  a primeira edição da empresa brasileira saiu logo em 1992. Isto, talvez, ajude a explicar os graves problemas da tradução. Fico com três exemplos vocabulares (há problemas de semântica, de ritmo etc.):

a) usa-se “lançamento a gol” em vez do simples, direto e corrente “chute a gol”

b) “O [pub] Green Man, prosseguiu, jamais servira uma pessoa de cor. Nenhum negro ou asiático jamais tomara um drinque no Green Man. E todos os que trabalhavam no Green Man tinham orgulho daquele recorde.” (p. 142) Alguma dúvida de que a tradução apropriada do termo em inglês record, neste caso, seria histórico?

c) chama-se de Campeonato Inglês aquilo que seria mais apropriado denominar Copa da Inglaterra. E denomina Liga aquilo que o senso comum chama Campeonato Inglês.

São três entre os muitos que poderia citar. E olha que falo apenas dos que saltaram aos olhos, sem sequer ter visto o original em inglês.

Marcha das Vadias no sábado

24/5/2012

Marcha das Vadias 2012. Importante, louvável, necessária. Sábado, 26/5, 13h. No Rio, no Posto 4, em Copacabana. Mas também em várias outras cidades do Brasil, porque os problemas e consequências da intolerância, do patriarcado, do machismo e da misoginia estão em todo lugar. Vale ler os blogues, textos e manifestos de diferentes cidades, incluindo, claro, a espetacular campanha da Marcha das Vadias de Brasília (DF), com dezenas de imagens bem-feitas, criativas e questionadoras, como a abaixo.

Uma resenha

6/5/2012

Dando uma geral nos arquivos do computador, encontrei a resenha abaixo, escrita por Adriana Facina, professora da UFF, a respeito de meu primeiro livro, Segurança Pública, Direitos Humanos e Violência. Escrita em outubro de 2009, acabou ficando inédita – não por falta de tentativas de publicá-la em certos veículos. Com autorização da autora – e graças à generosidade dela -, publico.

*  *  *

Por Adriana Facina

“Walter Benjamin, filósofo marxista judeu que se suicidou em 1940 para escapar dos nazistas, dizia que o historiador que desenvolve empatia com os vencedores beneficia os herdeiros desses vencedores, os opressores do tempo presente. ‘Todos os que até hoje venceram participam do cortejo triunfal, em que os dominadores de hoje espezinham os corpos dos que estão prostrados no chã’, dizia Benjamin em suas Teses Sobre o Conceito de História. Como a história frequentemente é narrada a partir da perspectiva dos vencedores, cabe àqueles que se identificam com a tradição dos oprimidos ‘escovar a história a contrapelo’.[1]

Há mais de um ano, uma megaoperação policial no Complexo do Alemão combinou forças repressivas estaduais e federais, marcando época no histórico das políticas de segurança pública desenvolvidas no estado do Rio de Janeiro. Enquanto muitos festejavam a realização do Pan em solo carioca, 1.350 policiais foram enviados para uma das áreas mais pobres e desassistidas da cidade. Com aproximadamente 180 mil habitantes, o Complexo do Alemão possui apenas uma escola estadual, não tem postos de saúde funcionando e nenhum centro cultural. Na grande imprensa, o tom foi de louvação à ação repressiva que deixou oficialmente 19 corpos estendidos no chão da favela, alguns deles com sinais de execução sumária. Autoridades apoiando a iniciativa, pois, como foi dito na época, não se pode combater o crime com flores. A classe média, aterrorizada em seus guetos, cujas cercas são formadas pelo medo cotidianamente regado pela mídia corporativa, aplaudia e tinha a sensação de que, finalmente, alguém estava fazendo alguma coisa para combater o crime. As vozes que ousaram contestar as visões oficiais sobre o ocorrido no Alemão falavam em chacina e denunciavam o desrespeito flagrante aos direitos humanos. Foi pequeno o espaço que puderam ocupar nos meios de comunicação e mesmo em instituições insuspeitas como a OAB/RJ, que tratou de exonerar o presidente da sua Comissão de Direitos Humanos e Assistência Judiciária, o advogado João Tancredo, cujo papel foi fundamental na condução da investigação sobre o massacre em questão.

Defender os direitos humanos não é tarefa fácil na sociedade brasileira hoje. Existe um senso comum bastante difundido que estigmatiza os militantes de direitos humanos como defensores de bandidos, sócios do crime etc. Parecemos ter esquecido que a origem da ideia de direitos humanos remonta pelo menos ao tempo da Revolução Francesa, movimento político que funda a época contemporânea e coloca as massas como protagonistas de transformações sociais profundas. A perspectiva básica que reunia todos os segmentos sociais envolvidos na revolução era a da necessidade de se criar uma ordem na qual o ser humano deveria ser o centro da vida política e social. Mais recentemente, sob o impacto dos horrores da Segunda Guerra Mundial, cujo saldo de milhões de mortos incluía os assassinados em campos de extermínio e também os civis massacrados pelas duas bombas atômicas lançadas sobre o Japão, surgiu a Declaração Universal dos Direitos Humanos, proclamada pela ONU em 1948. Nela são condenados o arbítrio e a tortura e garantidas a liberdade de expressão e o direito ao trabalho, entre outros. Desse modo, procurava-se manter garantias mínimas para uma vida digna a todos os seres humanos. Eram os chamados “anos gloriosos”, nos quais as economias capitalistas ocidentais cresciam num ritmo acelerado e a existência do bloco socialista alimentava sonhos concretos de revolução.

Mais de meio século depois, a conjuntura é diversa. A devastação neoliberal gerou desemprego, fragmentação, individualismo e desesperança em meio ao hiperconsumo e à mercantilização da vida humana. Não podendo mais ser incorporados via emprego ou consumo, os pobres se tornaram uma massa de seres supérfluos. Como classes perigosas, esses supérfluos são agora objeto não mais de políticas de bem estar social, mas sim de um Estado penal, nos termos do sociólogo Loïc Wacquant, que os condena às prisões ou mesmo ao extermínio.

Esse contexto histórico favorece a proliferação de discursos que relativizam os direitos humanos, legitimando práticas como tortura e execuções sumárias Desse modo, a própria idéia de ser humano, de humanidade é relativizada. Em última análise, os que atiram contra os direitos humanos não estão dizendo que certas pessoas têm direitos e outras não. Mas sim que alguns são humanos de verdade, enquanto que outros não merecem tal designação. As cerca de 1.300 mortes em autos de resistência registradas em 2007, assassinatos pelos quais os representantes armados do Estado não têm de responder, traduzem em números essa desumanização.

O livro do jornalista e historiador Rafael Fortes se coloca na contracorrente dessas visões e fornece um material precioso para a documentação e análise das políticas de segurança pública do governo Sergio Cabral Filho. O autor realizou nove entrevistas, que na verdade mais parecem diálogos, com personalidades que se expressaram publicamente na época da chacina. Políticos, intelectuais, um jornalista, defensores dos direitos humanos que, a partir de diferentes filiações teóricas e filosóficas, vão se manifestar contrariamente à política de suposto confronto com a criminalidade nas favelas, denunciando-a como ineficaz e geradora de mais violência.

Um dos entrevistados, o deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL), afirma que a polícia carioca é uma das mais violentas do mundo, sendo a que mais mata e a que mais morre. É uma força pública que está sendo utilizada não para o combate ao crime, mas sim a uma determinada imagem do criminoso: o jovem negro favelado. No dia seguinte à chacina, de manhã cedo, o deputado estava na favela e constatou que a dinâmica do comércio varejista de drogas continuava a mesma, enquanto mães choravam as mortes de seus filhos e moradores reclamavam por terem suas casas e comércios saqueados pela polícia. Defendendo a idéia de que estamos passando por um processo silencioso de genocídio da juventude pobre e negra, ele diz que a proporção de jovens mortos em confronto com a polícia é de 40 para 1 na cidade do Rio de Janeiro. A desproporção desses números nos ajuda a desconstruir a ideia de existiria uma política de confronto, como afirmam o governador e seu secretário de segurança, ou mesmo uma guerra.

Cecília Coimbra, professora do curso de Psicologia da UFF e presidente do Grupo Tortura Nunca Mais/RJ, critica essa perspectiva de que estamos em guerra, pois ela legitima, por exemplo, um treinamento brutal para os policiais militares voltado para identificar o pobre como inimigo. É este o homo sacer, termo utilizado por Giorgio Agamben para definir aquele que é matável sem que isso seja considerado crime. Tanto Cecília, quanto a entrevistada Vera Malaguti Batista, também professora da UFF, chamam a atenção para uma cultura violenta produzida cotidianamente pelos grandes meios de comunicação. Vera destaca ainda a importância do proibicionismo na produção da violência ligada ao comércio varejista de drogas.

O jornalista Marcelo Salles, autor de uma bela reportagem para a revista Caros Amigos sobre o cotidiano dos moradores do Complexo do Alemão imediatamente após a chacina, aponta para a falta de democracia na cobertura do evento. Ele guardou os jornais do dia seguinte à ‘megaoperação’ e, régua e calculadora em punho, mediu o espaço das reportagens destinado à versão da polícia, que ocupava cerca de 90% das páginas dos jornais, restando apenas 10% para visões que a problematizavam e falavam sobre o desrespeito aos direitos humanos cometido pelas forças estatais.

Além das entrevistas, o livro reúne artigos sobre o extermínio de pobres conduzido pelo Estado e que nos ajudam a compreender os acontecimentos do Complexo do Alemão dentro de um contexto mais amplo. Um exemplo é o texto “Um Carandiru por mês”, do jornalista José Arbex Jr., que questiona a figura do mandado de busca coletivo e nos faz pensar sobre o gigantismo das cifras do extermínio no estado do Rio.

Completando a tarefa benjaminiana de escovar essa história a contrapelo, Rafael Fortes publica documentos importantes que denunciam os abusos cometidos na operação de junho de 2007. Os manifestos públicos, assinados por organizações da sociedade civil e por militantes dos direitos humanos, se tornaram um importante instrumento para dar voz ao dissenso e defender a vida em meio à celebração da morte.  Mas o mais impressionante é o Relatório Técnico produzido por uma comissão de peritos independentes designada pela Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República. Primeiramente disponibilizado na internet e posteriormente tornado sigiloso, o laudo confirma a versão dos moradores do Complexo do Alemão sobre a ocorrência de execuções sumárias durante a “megaoperação”. É o próprio Estado brasileiro produzindo um documento oficial que confirma uma política pública voltada para o extermínio de pobres. Publicado no livro de Rafael Fortes, essa fonte histórica fica preservada dos misteriosos desaparecimentos de documentos que lançam luz sobre os porões da repressão estatal, muito comuns na história recente do Brasil. Um presente para aqueles historiadores do futuro que não formarão fileiras ao lado dos opressores.

FORTES, Rafael (org.). Segurança pública, direitos humanos e violência. Rio de Janeiro, Editora Multifoco, 2008.


[1] BENJAMIN, Walter. Obras escolhidas vol. 1. São Paulo, Brasiliense, 1993, p.225.”

Uma visita ao inferno

27/2/2011

Mês passado estive em Buenos Aires pela sexta vez. Em pelo menos três delas, tentei fazer a visita guiada ao Espacio para la Memoria – sem sucesso. Parte da dificuldade se devia à minha falta de datas. Em três ocasiões, fui participar de congressos, o que significava pouquíssimo tempo livre. A outra parte se refere à falta de estrutura do próprio espaço: praticamente não havia guias para fazer a visita. Em uma ocasião (acho que em janeiro de 2009), simplesmente não havia visitas, nem alguém com quem se pudesse conversar.

Foi difícil não apenas fazer a visita, mas também encontrar um tom para escrever este texto e dar-lhe um título. Tentei fugir de qualquer analogia religiosa ou ficcional, mas não consegui encontrar termo melhor (ou pior) que inferno. Certa vez, defini como “impressionante” um livro chamado La Voluntad. Um ano e meio depois de terminar a leitura, deparei-me com a tarefa de encontrar palavras para descrever o principal lugar descrito na obra.

Observar o crescimento do uso do lugar por diversas entidades me alegrou. De alguma maneira, dá-se vida a um lugar onde tantas foram destruídas. Mesmo em janeiro, vi prédios aberto e funcionando, pessoas circulando. Gente. Vida.

A vida vencendo a morte: entrada de veículos que traziam os sequestrados no passado hoje serve ao Espacio para la Memoria.

O segundo motivo de alegria é perceber o investimento estatal no lugar – decisão política tomada pelo governo federal. A ocupação do espaço gera necessidade crescente de aporte de recursos públicos – uma eterna e difícil batalha em quase todos os países, quando se trata de lutar por direitos (e não de “salvar” bancos e multinacionais, por exemplo). Um jovem que acompanhou a visita (além dos visitantes, havia três jovens que fazem capacitação para trabalharem como guias) diz que, a cada ano, cresce a demanda por visitas. Ou seja, o investimento na contratação de pessoas é uma resposta não só à luta política dos movimentos de direitos humanos argentinos, mas também ao crescente interesse de visitantes da cidade, do país e do exterior. Sou exemplo vivo: em anos anteriores, tinha a nítida impressão de que era um dos raros interessados em conhecer o lugar. Em janeiro de 2011, fiz uma visita guiada da qual participavam cerca de 25 visitantes (havia brasileiros além de mim), além de um guia e outros três jovens que trabalham lá.

Marcada para as 10h, a visita começou umas 10h25 – o que foi ótimo, diga-se de passagem, porque cheguei atrasado e nada perdi – e estendeu-se até umas 13h. Contudo, é bom deixar claro que estou falando de algo muito  diferente de um passeio turístico. Nem tampouco, como destacou o guia, uma aula de história. Trata-se de um debate político sobre questões do presente. Temas que estão em discussão e em aberto na sociedade argentina – seja pelos processos judiciais em que há réus acusados de crimes contra a humanidade cometidos durante a ditadura, seja pela disputa sobre o que fazer com a ex-ESMA e como financiar seu funcionamento. Trata-se de assumir uma posição clara no presente a respeito do passado recente e da atualidade. E, óbvio, de que Argentina se quer construir para o futuro. Estas discussões resultam, por exemplo, na decisão do governo argentino de estabelecer uma política de Estado de montar equipes de antropologia forense para investigar valas comuns em cemitérios, buscando identificar vítimas (sequestrados/desaparecidos/assassinados) da ditadura.

Após duas horas e meia de visita, os guias e visitantes seguem discutindo história, política e direitos humanos. O acesso a documentos nessa sala em que se encerra a visita é um dos pontos altos.

Ademais, foram três horas de discussão política interessantíssima e de alto nível sobre direitos humanos – incluindo um bate-papo livre e informal ao final. O conteúdo da visita e, principalmente, da fala de Pablo (o guia) é altamente politizado. Este texto foi construído, em grande parte, com informações fornecidas durante a visita pelo guia e pelo trio que mencionei.

Contexto

O nome oficial atual é Ex Centro Clandestino de Detención, Tortura y Extermínio “Escuela de Mecánica de la Armada” (ESMA). Mais do que um um título extenso, representa o reconhecimento, por parte do Estado argentino, do que houve naquele terreno. Acredito que a verdade nua e crua, pura e simples, dita abertamente, é a única forma que permite a mudança, a superação de problemas do passado, a percepção dos erros, de maneira que equívocos similares possam ser discutidos e combatidos no presente. E evitados no futuro.

Mapa do inferno

O atual Espacio para la Memoria foi, no passado, a Escuela de Mecánica de la Armada, conhecida pela sigla ESMA. A corajosa decisão de retirar o local das mãos da Marinha e tranformá-lo num pólo de organizações de direitos humanos foi tomada pelo governo de Néstor Kirchner e consolidada no seguinte, de Cristina Kirchner. Existiu e existe, porém, uma luta ferrenha dentro do governo e da sociedade argentina sobre o que fazer com os prédios e com quem devem ficar.

A medida foi tomada em 2004, em conjunto, pelo presidente Néstor Kirchner e pelo então prefeito de Buenos Aires, Ibarra. Um resumo do processo está aqui. (Um dos pontos que me impressionaram na fala do guia é que praticamente toda vez que menciona algo em termos de mudança/renovação da postura do Estado argentino em relação a direitos humanos, passado/ditadura etc., surge o ano de 2003. A meu ver, não é obra do acaso: trata-se do ano em que Néstor Kirchner assume a presidência.)

Hoje o espaço sofre com a falta de financiamento promovida pelo prefeito Ricardo Macri. A área é administrada por uma autarquia que combina prefeitura, governo federal e sociedade (no caso, movimentos sociais ligados a direitos humanos). É esta entidade, por exemplo, que contrata as pessoas que trabalham como guias. Funcionam nos prédios da ex-ESMA diversas organizações como Mães da Praça de Maio, UNESCO, H.I.J.O.S, Secretaria de Direitos Humanos do Mercosul, Iniciativa Latinoamericana para la Identificación de Personas Desaparecidas.

O terreno principal da ex-ESMA tem cerca de 17 hectares e conta com 35 prédios. Possui muitos acessos, está próximo a avenidas largas e a uma autopista por onde circula grande quantidade de gente. Está perto do aeroporto Aeroparque, de onde partiam os voos da morte, nos quais os sequestrados eram jogados vivos no Rio da Prata ou no Oceano Atlântico. (Aliás, esta foi uma forma de desaparecimento típica da ditadura argentina – raros foram os processos judiciais para julgar e condenar os presos, como ocorreu em uma proporção maior de casos no Brasil.) Daí resulta uma contradição: neste local movimentado funcionou um centro clandestino de detenção durante sete anos e meio, mas pouco se falava a respeito, inclusive por conta da propaganda governamental (que contava com apoio e subscrição da mídia gorda), cujo slogan era “no te metás” (“não se meta”).

A repressão tinha diversos objetivos. Um deles era matar, na sociedade e no povo, a organização, a capacidade de luta, a ideia de tomar os rumos do país nas próprias mãos. Esse esforço implicou o desaparecimento de cerca de 30.000 pessoas entre 1976 e 1983. Sumiram não apenas elas, mas a maior parte do que produziram: textos, poesias, cartas, desenhos, pinturas etc. O esforço para calá-las incluiu a tentativa (na maioria das vezes, vitoriosa) de destruir qualquer forma de manifestação.

Inglória da nação: navios de guerra adornam a grade que cerca o antigo campo de concentração

Em tempo: registre-se que, tal qual no Brasil, houve militares que resistiram e foram perseguidos, presos, assassinados, expulsos de seus trabalhos etc. (E continuam sendo perseguidos no presente, como se pode ler nesta matéria de Carta Capital relatando a vergonhosa iniciativa de setores do governo Dilma Rousseff (PT), para anular a anistia a cabos da Força Aérea Brasileira afastados em outubro de 1964.) Estes militares eram minoria, mas existiram e cumpriram importante papel histórico. Na Argentina, parte deles se reunia  em uma organização chamada, pelo que anotei, Cemide Cemida (Centro de Militares para Democracia).

Pablo ressalta que quase todos os sequestrados pertenciam a organizações: de trabalhadores, de bairro, estudantis, guerrilheiras. Destaca também o papel crucial de França e Estados Unidos na organização da repressão, fornecendo equipamentos, treinamento, know how, financiamento e apoio político. (Para quem quiser saber a respeito da contribuição do governo dos EUA para a violação sistemática de direitos humanos nas ditaduras do Cone Sul, recomendo a leitura de um livraço chamado A Face Oculta do Terror, escrito pelo jornalista estadunidense A. J. Langguth. No caso da França, os métodos usados na repressão ao movimento de independência da Argélia nos anos 1950 foram exportados por militares franceses na década seguinte.)

Em certo momento, um colombiano que participava da visita argumentou que a situação na Colômbia é, há décadas, igual ou pior do que a ocorrida nas ditaduras do Cone Sul. Mas, do ponto de vista formal, existe uma democracia por lá. E, do ponto de vista político, um governo neoliberal que tem apoio dos EUA e da mídia gorda internacional (incluindo a brasileira). Portanto, nada a dizer ou a fazer a respeito, na opinião destes setores.

As relações entre repressão e interesses econômicos ficam claras a partir do exemplo deste prédio (à esquerda), construído em frente à ex-ESMA, do lado oposto da Avenida del Libertador. Naquele terreno funcionava uma fábrica de lâminas de barbear da empresa Gillette. Ou seja, nos anos neoliberais do Governo Menem, fecha-se uma fábrica, demitem-se trabalhadores e constrói-se um prédio de luxo no lugar. Apaga-se, junto, parte da memória, pois operários que pertenciam à comissão de trabalhadores da fábrica desapareceram durante a ditadura.

Propaganda do empreendimento imobiliário com o "Parque da Reconciliação" do lado oposto da avenida.

O serviço se completa com a campanha publicitária do empreendimento, que anuncia, do outro lado da rua (onde se situava a ESMA), o Parque da Reconciliação (poético o nome, não?). Veiculada em 1998, evidencia o projeto do governo Menem de pôr abaixo os prédios e construir um parque público, com campos de golfe.

Outro exemplo está neste vídeo:

A visita da comissão da OEA em 1979

De acordo com o guia, em 1979, a ESMA recebeu a visita de uma comissão designada pela Organização dos Estados Americanos (OEA). A comissão produziu um relatório expondo as violações de direitos humanos cometidas pelo regime e fazendo uma série de recomendações – as quais, evidentemente, foram ignoradas. Criou ainda uma oficina internacional para ouvir denúncias de violações. Montava-se uma mesa em praça pública (na Praça de Maio) e os representantes estrangeiros ouviam os depoimentos. Esta oficina foi fundamental para legitimar a existência da figura do desaparecido político – governo, direita, mídia gorda e setores da sociedade diziam que isto “não existia” -, bem como dos familiares de desaparecidos. Tais conceitos adquiriram forma e materialidade nas filas que se formavam, diariamente, com centenas de pessoas que queriam falar. Criou-se um espaço para ouvir dotado de credibilidade e, imediatamente, elas correram para contar suas histórias. Vale lembrar que, naquele momento, espaços como mídia gorda, instituições do Estado e até mesmo confessionários religiosos eram suspeitos e poderiam ajudar a perseguir ou entregar à repressão quem se atrevesse a procurá-los para falar.

Pátio traseiro do Cassino de Oficiais, onde os carros desembarcavam os sequestrados.

Os preparativos para a visita levaram a mudanças na organização do Cassino de Oficiais, principal prédio de tortura e detenção dentro da ESMA, de maneira a maquiá-lo. Estas modificações tinham um duplo objetivo: negar a existência de um campo de concentração e extermínio e, ao mesmo tempo, deslegitimar as denúncias. Isto se fez, por exemplo, mudando de lugar escadas de alvenaria (destruindo a existente e construindo outra, em outra parte do prédio), levantando paredes para esconder a localização de elevadores etc. Ou seja, alguém relatava que fora levado do subsolo (onde funcionavam as principais salas de tortura) para o terceiro andar (onde ficava o principal cativeiro) de elevador, e os membros da comissão não viam elevador algum no prédio.

Durante o período da visita, os presos foram trasladados para uma ilha por um barco que saiu da cidade de Tigre. Ficaram em uma casa de campo para retiros espirituais (!) cedida pela Igreja Católica.

Como se pode perceber, o apoio da Igreja Católica argentina à ditadura e à repressão não se deu unicamente em termos discursivos e/ou ideológicos, mas também através de ações materiais bastante concretas. Por outro lado, a Igreja Católica, tanto naquela época quanto hoje, não era um bloco homogêneo. Um momento emocionante para mim, dando conta dos sopros de alívio em meio à repressão, foi quando o guia destacou a importância de Dom Hélder Câmara para a luta social na Argentina, tanto para os de dentro da Igreja quanto para os de fora.

Existe humanidade e cotidiano no inferno?

Uma das coisas que me deixaram atônito durante a visita foi olhar (por dentro e por fora) o prédio do Cassino dos Oficiais e pensar:

Na aparência, um prédio estatal comum.

– Puta merda… Fisicamente, aos olhos, é só um prédio público como outro qualquer da América Latina. Parece com várias escolas, faculdades, instalações militares, hospitais, postos de saúde que já vi e/ou onde já estive. A cor bege insossa predominante, as paredes descascando, o chão e as escadas com degraus escorregadios e gastos, os corrimãos que poderiam produzir sorrisos se descidos por crianças a brincar. Mas dá arrepios. Dá vontade de chorar.

El Sótano, subsolo onde funcionavam as salas de tortura, é úmido, quente, abafado e tem teto rebaixado em uma das salas (precisei abaixar a cabeça para não bater em vigas de sustentação). Em dado momento, a divisão do espaço em saletas separadas por divisórias de madeira incluía banheiro, biblioteca, refeitório, salas de tortura, salas de oficinas (incluindo uma de falsificação de documentos), enfermaria etc. A distribuição das salas e do espaço do salão foi mudando ao longo do tempo. As obras para “melhorar” o espaço – ou seja, adequá-lo às necessidades impostas pela maneira de operar vigente em cada período – eram realizadas pelos próprios sequestrados, em regime de trabalho escravo.

Jornalismo de ficção do bom e do melhor: reportagem do Clarín sobre prisioneiros da ESMA apresenta-os como "extremistas que se entregaram voluntariamente" e encontram-se em "processo de recuperação". O trabalho escravo era parte deste do "processo de cura" imposto aos raros escolhidos para sobreviver.

Enquanto uns eram torturados e assassinados, outros eram obrigados, após o período de tortura, a realizar trabalhos, com a perspectiva de sobreviverem. (“Após o período de tortura”, evidentemente, é modo de dizer. Calcule o que é ficar preso num lugar e trabalhar de forma escrava ouvindo gritos de companheiros torturados e assassinados nas salas em volta, enquanto, por alguma razão bizarra, você foi escolhido para sobreviver.) A falsificação de documentos, por exemplo, facilitava aos agentes da repressão a entrada em movimentos e organizações sociais. Um agente lotado na ESMA infiltrou-se nas Mães da Praça de Maio e obteve dados que permitiram o sequestro e assassinato de várias mães que fundaram a associação. Já na enfermaria, aplicavam-se injeções de pentotal nos sequestrados a serem embarcados nos voos da morte.

Pontilhando o mapa: Centros Clandestinos de la Ciudad de Buenos Aires

O grau de bizarrice da ESMA não tem precedentes e comparação mesmo em relação aos demais centros de detenção na Argentina. Isto se explica, em grande parte, porque o lugar funcionava em função do projeto político – com aspirações presidenciais – do almirante Emílio Massera, que morreu em novembro último.

O papel aceita qualquer coisa: Massera e seu "Partido para a Democracia Social". Tal como a daqui, a ditadura de lá pariu um PDS.

Houve estudantes secundaristas da ESMA (que faziam curso para se tornarem suboficiais), colocados para montar guarda e para trabalhar como carcereiros e/ou torturadores. Ou seja, o regime obrigou garotos de 17 e 18 anos a cometer crimes como parte da rotina de trabalho e estudo.

O terceiro andar do Cassino de Oficiais ficou conhecido como La Capucha, nome que expressa o fato de que todos os prisioneiros eram obrigados a usar capuzes. Calcule o que é passar dias, semanas, meses sem poder dirigir a palavra a outros prisioneiros, sendo chamado por um número e sem ver a luz, um rosto humano ou qualquer cor… Lá atuaram como carcereiros muitos dos jovens estudantes da ESMA.

Pais e filhos

Pablo informa que houve cerca de 500 crianças raptadas e entregues para adoção durante a ditadura. Destas, 102 tiveram sua identidade recuperada. Ou seja, após processo judicial, descobriram e identicaram os verdadeiros pais. Em La Capucha funcionava diariamente… uma maternidade. Estima-se que 35 nenês vieram a este mundo na ESMA. Onze deles já sabem sua identidade. (Sobre a espinhosa questão do reconhecimento, recomendo o belíssimo documentário H.I.J.O.S – El Alma en Dos.)

O último caso de identificação entre os 102, relatado pelo guia, tem contornos kafkianos (novamente me pego usando analogias ficcionais e/ou religiosas para descrever a realidade). Trata-se de um advogado da Força Aérea argentina. Lidando com processos judiciais envolvendo a busca de reconhecimento de identidade de filhos de militantes, bateu-lhe a dúvida a respeito de seus próprios pais.

Arte e política: escultura na grade em frente à ex-ESMA.

Voltemos no tempo. O pai do garoto trabalha na Força Aérea… Por admirá-lo e por causa da criação que tem, o menino decide entrar para a Aeronáutica. Ao lidar com os processos, pensa sobre sua idade e história… Bate a dúvida. Enfrenta o processo de identificação e descobre que aqueles que lhe criaram na verdade não são seus pais. Pior: que o ato de adoção e de troca de identidade pelo qual integrou-se a esta família é parte do sistema montado pela repressão. Nasceu na ESMA e sua história é semelhante às dos processos nos quais defende a Aeronáutica…

Em meio a relatos como este, e sabendo que o grosso da repressão na ESMA deu-se entre 1976 e 1978, não pude evitar pensar em minha própria história. Durante a própria visita, e nos dias seguintes, me peguei pensando em como deve ser pertencer a uma geração cujos pais foram assassinados em massa por se envolverem em questões políticas – ou por buscarem saber o que houve com familiares.

Não pude evitar pensar em como deve ser difícil saber que muitos amigos da sua idade na verdade não são filhos dos pais que os criaram, e que as histórias de vida montadas pelas famílias que os adotaram – as quais, em muitos casos,  envolvem amor legítimo e genuíno – são mentiras ou, na melhor das hipóteses, meias-verdades. Ficções.

Entre o individual e o coletivo: um interlúdio pessoal

Não pude evitar, por fim, pensar em mim mesmo e na minha história: filho de militar (e oficial justamente da Marinha…), nascido em fevereiro de 1978. E se eu tivesse nascido na Argentina e criado por pai militar? Teria dúvida sobre paternidade/maternidade em algum momento da minha vida? Como comunicaria isso aos meus pais? Perguntas, especulações que, evidentemente, não tenho como responder. Mas que fazem pensar.

Fazem pensar, inclusive, em como vida pessoal e a história política se cruzam, se combinam e influenciam uma à outra de modos raros e, às vezes, improváveis. E como, raramente, temos a oportunidade de parar para refletir sobre tais assuntos. Os caminhos e descaminhos de minha vida pessoal – mas também da sociedade brasileira e de seus governos – fazem com que eu tenha certas dúvidas e questões, para as quais, provavelmente, nunca terei uma resposta razoavelmente precisa, completa e confiável. Na medida em que nenhum governo tomou – e me parece claro que não será o de Dilma Rousseff (PT) a fazê-lo – medidas claras e decisivas para cumprir leis das quais o Brasil é signatário, passar o passado a limpo, identificar e condenar os responsáveis por crimes contra a humanidade, fico sem saber se coube a meu pai alguma parte no latifúndio da repressão, e que papel/parte foi. (Essa dúvida/questão/curiosidade hoje é menor e menos importante do que já foi no passado. Seja como for, a visita à ex-ESMA a fez aflorar.)

Mídia corporativa e ditadura: tudo a ver

Perguntado por um brasileiro que fazia a visita, o guia informa que a proprietária do Grupo Clarín (principal agregado de empresas a compor o oligopólio da mídia gorda argentina) responde a um processo que já dura nove anos a respeito de dois de seus filhos, supostamente adotados. Em diversos momentos da visita, Pablo destaca o papel crucial da mídia gorda argentina na legitimação da repressão. Papel, aliás, que ela continua desempenhando ao calar sobre o tema e ao se posicionar contra a apuração e divulgação da verdade e contra o acerto de contas com o passado. Na maior parte do tempo, simplesmente se cala. Na Argentina e no Brasil.

Luta do passado, luta do presente

A verdade às claras e em público: nomes e fotos de repressores que atuaram na ESMA

Um dos objetivos da conversão do lugar em espaço para a memória é justamente estimular a que se fale sobre o assunto. Trata-se de uma pequena, mas significativa possibilidade de romper o “pacto de silêncio” que se estabeleceu entre os militares e civis que participaram da repressão. Como explica o guia, os militares nada dizem. Os civis (médicos, enfermeiros, cozinheiros, guardas, jornalistas, serventes, técnicos, pedreiros, visitantes, engenheiros, secretárias) que trabalharam ou passaram pelo local, tampouco. Muito menos os setores da classe dominante argentina e internacional que tiveram participação crucial no regime: empresas multinacionais, mídia corporativa, Sociedad Rural Argentina (SRA) (não é só no Brasil que uma entidade do setor agrário representa o que há de mais atrasado, reacionário e antidemocrático na sociedade…).

A verdade às claras e em público (II): a marca d'água do painel é uma lista em construção dos nomes de parte dos 5 mil sequestrados que passaram pela ESMA - dos quais apenas cerca de 200 sobreviveram.

Na Argentina, há um padre preso por participar da repressão (houve párocos que repassavam aos militares informações ouvidas no confessionário). Há processos contra um médico, um ex-ministro da Economia, um juiz e, como dito antes, a dona de um dos oligopólios de comunicação do país. Ou seja, apuram-se os crimes contra a humanidade cometidos no período e as investigações atingem o andar de cima da sociedade.

Pablo informa que está previsto para este o julgamento de uma causa envolvendo a repressão na ESMA. São réus cerca de 20 dos responsáveis. Pela intensidade dos crimes e pela representatividade do sistema operado na ESMA, este julgamento é crucial para se estabelecer a verdade e a justiça. E tem uma carga simbólica tremenda.

Galeria de desonra: réus no processo da ESMA

No Brasil, raros são os exemplos de espaços que guardam alguma semelhança com este, como é o caso do Memorial da Resistência, em São Paulo (SP). Em Assunção (Paraguai), há o Museo de las Memorias. Em Montevidéu (Uruguai), o Centro Cultural y Museo de la Memoria (MUME). Tive o privilégio de ir a todos eles e recomendo as visitas.

No Uruguai, aliás, o povo teve a oportunidade de votar e decidir não uma, mas duas vezes a respeito da manutenção da lei de anistia. De forma soberana, optou por colocar uma pedra sobre o passado. No Brasil, mal conseguimos discutir o assunto, que fica a cargo dos altos escalões do Estado (Executivo, Legislativo e Judiciário), a quem pouco interessa mexer no assunto.

De tudo que a visita me fez pensar, e de todas as diferenças notáveis entre passado e presente, percebo um ponto em comum: aquele continua sendo um lugar de intensa atividade política. Em um dado momento, foi ponto chave de articulação e de prática da repressão (e, obviamente, de resistência por parte das vítimas) e do projeto político de Emilio Massera. Hoje, e cada vez mais, lugar de intensa atividade política de entidades de direitos humanos.

Visite

Para chegar lá: pegar a linha C (azul escura) do metrô em direção a Retiro e descer nessa estação. Trocar para a estação de trem e comprar um bilhete da linha para Tigre. Descer na estação Rivadavia. Em janeiro de 2011, o bilhete custava $ 0,80 (com subsídio do Estado nacional, como informa o verso). Guarde-o, pois não é preciso pagar a volta, mas é necessário inseri-lo na roleta na saída em Retiro. Pode-se também pegar um ônibus que vá toda a vida pela Avenida del Libertador.

Há várias entradas pela Av. del Libertador. A principal, de onde sai a visita, fica entre os números 8200 e 8300.

Esta página explica como solicitar/marcar uma visita.

Contribuições indiretas de amigas e amigos (7)

8/12/2010

Pinga na caixa postal mensagem chamando atenção para a “pérola” abaixo, contida em matéria d’O Globo:

“RIO – O delegado adjunto da Delegacia de Roubos e Furtos (DRF), Marcelo Martins, apresentou, na manhã desta terça-feira, Edson Ventapane da Silva, o Mãozinha, de 36 anos. Ele era procurado por roubo de cargas e era foragido do Complexo do Alemão, na Penha. Mãozinha foi preso na tarde de segunda-feira na casa de uma tia, em Cavalcanti.”

Sobre o destaque em itálico: é impressão minha ou a redação aproxima o  Complexo do Alemão de um campo de concentração (ou uma prisão)?

A máquina de produzir estigmas segue implacável.

“Crimes de maio” versão Rio?

24/11/2010

Espero estar enganado. Tomara que não passe de teoria da conspiração da minha cabeça.

Mas, na mídia, nas declarações das autoridades, nos estranhos acontecimentos, na atuação da polícia (do pouco que sei, via mídia gorda) e no estado de espírito da classe média (a da opinião publicada, mas que se arvora em opinião pública), o clima e os ânimos estão em ponto de ebulição para que ocorra algo semelhante ao que rolou em Sampa anos atrás.

Tomara que eu esteja inteiramente errado. Tomara.

Ferréz, em entrevista na Caros Amigos de outubro

19/12/2009

Aspas para o escritor paulistano:

“Quando surgiu uma emergência no Rio eu não esqueci o que o Lula falou, o Lula falou que tem que ter uma repressão maior a esse pessoal aí, ele falou isso, morreram quantas pessoas no morro? As pessoas que tinham votado nele morreram no morro, quando um dirigente fala em público que tem que ter uma repressão maior nisso, ele sendo de esquerda ou de direita, esse cara é responsável pelas mortes das pessoas que vão morrer ali.”

Como escrevi certa vez, Cabralzinho no Tribunal Penal Internacional de Haia, na Holanda, respondendo como réu por crimes contra a humanidade. Um dia a gente chega lá.


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